Quem merece vencer o Oscar de Melhor Animação em 2026?
Criada em 2002, a categoria que premia a Melhor Animação do Oscar tem sido dominada pelos filmes dos estúdios Disney e Pixar. Dentre os 24 longas premiados até o ano de 2026, 15 foram produzidos por um dos dois já citados, o equivalente a 62,5% do total. Entretanto, é perceptível uma mudança nas últimas duas edições da premiação. Ambos, O Menino e a Garça e Flow — respectivamente, campeão em 2024 e 2025 — são filmes considerados “estrangeiros”, que fogem do circuito norte-americano que costuma vencer na premiação.
O primeiro é um filme japonês do consagrado diretor do estúdio Ghibli, Hayao Miyazaki, que já havia conquistado o prêmio na mesma categoria em 2003, com A Viagem de Chihiro. Considerando o sucesso e aclamação que os longas japoneses têm recebido nos últimos anos, é surpreendente, tanto aos fãs quanto especialistas, que os nipônicos tenham conquistado a categoria apenas duas vezes até o momento.
Já Flow foi o responsável pelo primeiro Oscar da história da Letônia. O projeto, que nasceu de forma independente pelo diretor Gints Zilbalodis, foi produzido inteiramente pelo software Blender, que permite artistas criarem animações gratuitamente.
E novamente, dentre os cinco indicados à categoria de Melhor Animação, três têm produção norte-americana, sendo dois da Disney/Pixar. Será que mais uma vez a gigante das animações vai conquistar o prêmio, ou obras decoloniais de “origem estrangeira” irão levar a melhor desta vez? Eu assisti os cinco indicados e fiz meu próprio ranking daqueles que considero que mereçam mais ou menos. A lista e comentários sobre cada longa você confere a seguir:
5º | KPop Demon Hunters

Aquele que possivelmente é o nome mais cotado entre os telespectadores para receber o prêmio é também o que mais apresenta problemas de narrativa e roteiro. É claro o foco em uma audiência específica, as crianças e adolescentes da geração atual, que cresceram durante a época de popularização das plataformas de vídeos curtos e da música coreana em âmbito global. O principal fator que escancara esse enquadramento é o ritmo desenfreado do filme, que não deixa a peteca cair em momento algum e sempre mostra algum acontecimento, piada ou mesmo exageros visuais para captar a atenção de quem assiste. Ao contrário do que alguns possam pensar, o silêncio e a “falta de eventos” pode sim ser algo benéfico para a narrativa, em especial, naqueles momentos que exigem uma pausa para que as informações sejam digeridas, e só assim a trama seja trabalhada com a atenção e detalhes necessários.
Destaco aqui a cena em que a Rumi e a Mira discutem em cima de um trem em movimento, após discordarem sobre a letra de uma nova música e de atitudes recentes de ambas. O momento apenas apresenta o conflito, mas não o desenvolve, e logo corta para mais um confronto com os demônios. A relação entre a Rumi e o Jinu também não tem o tempo de tela exigido para que seja realmente bem explorada, assim, as poucas interações juntos tornam-se rasas. Mesmo tendo mais de uma hora e meia de duração, o filme parece focar em cenas que possam ser editadas para o compartilhamento em redes sociais, enquanto o verdadeiro propósito de uma obra, a história, acaba sendo deixada de lado. Mesmo a mensagem é mal desenvolvida e serve apenas como plano de fundo para as músicas e batalhas, que de fato, têm seu mérito, entretanto, não deveriam ser alguns dos poucos fatores positivos em uma obra de tal calibre, com produção da Netflix e indicação ao Oscar.
4º | Elio

O filme é considerado como o maior fracasso comercial da Pixar — houve um orçamento total estimado em 150 milhões de dólares, e só conseguiu arrecadar cerca de 35 milhões mundialmente nas estreias durante o primeiro final de semana. Teve também uma produção conturbada que pode ter influenciado diretamente na qualidade e promoção do mesmo. A princípio, a trama circundaria temas e elementos de identidade e pertencimento da comunidade queer. Porém, após uma recepção negativa dos líderes do estúdio, muito do que já havia sido escrito teve de ser mudado, tendo tido, inclusive, novos diretores que assumiram o projeto. O resultado era óbvio: um produto final completamente diferente da visão original dos criadores/diretores, que, somado ao desenvolvimento conturbado, influenciou na construção dos fatores que caracterizariam o longa.
Em meio a tantos problemas, Elio ainda consegue se sobressair na mensagem de valorização familiar, embora seja rasa perante o conjunto todo apresentado. O enredo é recheado de soluções fáceis sem vieses negativos para os personagens, o que concatena em uma trama previsível, que não empolga e não consegue se sustentar por conta própria através do universo construído. Desta forma, o apelo emocional, ora funcional, ora forçado, é utilizado à exaustão na tentativa de tornar o desenvolvimento um pouco menos desinteressante. É admirável a tentativa da Pixar em experimentar a ficção científica e a astronomia em um filme, porém, seres, culturas e galáxias diferentes das nossas não se garantem por si só, e precisavam de maior atenção naquilo que foge do extraordinário da obra, o lado humano.
3º | Arco

O representante francês da categoria é sucinto no propósito, mas carece de substância e sentimento. A ficção científica se passa no futuro, e tem a missão de fazer a representação de arcos-íris como se fossem seres humanos. A história surge no momento em que os dois mundos colidem e, aliados à relação de amizade infantil, ambos precisam se entender para ajudar um ao outro em meio ao caos do período retratado. O vínculo gradual construído entre Arco e Íris é facilmente o ponto forte do longa. Apesar das diferenças, eles enxergam no outro um propósito para enfrentar qualquer coisa, afinal, enfim encontraram um amigo capaz de alterar a realidade em que estavam inseridos em inércia.
Porém, mesmo que não seja tão necessário, tendo em vista que o núcleo infantil é a prioridade do enredo, a construção do mundo ainda carece de maior aprofundamento. O cenário enfrentado é quase pós-apocalíptico, com robôs que dominam a sociedade, incêndios constantes e uma tecnologia que parece tentar neutralizar o que já é irreparável. Mas nada disso é desenvolvido, e só serve como plano de fundo para os acontecimentos já citados anteriormente. Até mesmo os motivos do descontentamento dos protagonistas para com a própria vida não são tão explorados, e assim, a amizade deles poderia ter sido ainda mais convincente se tivesse a atenção necessária para isso. Apesar de Arco possuir uma premissa chamativa, ele ainda peca em elementos que poderiam torná-lo uma obra verdadeiramente memorável. No final das contas, acaba sendo uma experiência agradável, mas que não marca tanto quanto outros indicados da concorrência.
2º | Zootopia 2

Zootopia 2 detinha uma das maiores expectativas dentre os filmes de animação da Disney que receberam continuações nos últimos anos, em especial, pela capacidade do universo próprio em ser expandido e desenvolvido para obras seguintes. E ainda em termos de comparação, o título parece ter obtido maior sucesso entre os fãs do estúdio do que para com Frozen 2, WiFi Ralph e Moana 2, por exemplo, tanto para a crítica quanto para o enredo em si.
A metrópole de Zootopia é rica em diversidade de animais e biomas e aberta para que uma maior exploração fosse apresentada, e é justamente neste quesito que o segundo filme brilha. Novas espécies com dinâmicas diferentes das demais são mostradas, cada uma com cultura, costumes e regiões próprias, trazendo assim maior complexidade para o ambiente no qual os protagonistas estão inseridos. Esses, por sua vez, acabam sendo outro destaque do longa. A relação entre Judy e Nick já era um dos fatores cruciais no filme de estreia, e sabendo disso, os diretores fizeram questão de fazer com que este fosse um dos pilares principais que sedimentaram a sequência. Ao trazer novas camadas de desenvolvimento e sentimento para ambos, eles se tornam — de forma quase irônica — mais humanos aos olhos do público.
A convivência entre dois amigos que dividem o trabalho diário pode ser desgastante, e há uma atenção especial ao que a rotina de companheirismo trouxe para cada um, mesmo que as sensações sejam, muitas vezes, reprimidas. Por outro lado, apesar de carismáticos, os novos personagens da trama têm inserções forçadas ao elenco principal, e acabam não tendo a força e carisma necessários para acompanhar aqueles que já haviam sido apresentados antes. Um exemplo é a serpente Gary, que, a princípio, é apresentada como uma antagonista, mas que logo sofre uma inversão de papéis e se junta aos demais para colaborar com a história principal. A aproximação, entretanto, poderia ter sido mais gradual, e não tão rápida quanto foi no resultado final. Zootopia 2 ainda é uma ótima continuação que cumpre o papel de seguir o legado do antecessor e que abre brecha para novas sequências e discussões acerca das diferenças que nos tornam únicos no mundo afora.
1º | A Pequena Amélie

Aos três anos, notamos várias coisas e não entendemos nada.
Nem sempre a popularidade de uma obra reflete em sua qualidade, e este é o caso em A Pequena Amélie, que tem sido o filme, dentre os indicados a Melhor Animação no Oscar de 2026, menos comentado em sites agregadores de notas para este tipo de mídia. Com um estilo artístico único que mescla elementos de pintura à mão com aquarela e exageros de cores, a tela é a todo momento estampada por absurdos visuais.
O nível de atenção aos detalhes é tanto que literalmente qualquer cena do longa pode ser pausada e separada, e mesmo assim, fazer sentido e ser bonita por si só. Ao tratar de experiências de vida pelos olhos de uma criança, exageros visuais que se aproveitam do abstrato são utilizados para expressar a magia vivida durante o período da infância de qualquer pessoa. Por meio de metáforas e alegorias que condizem com os acontecimentos, somos convidados a experienciar junto da protagonista seus maiores temores e anseios enfrentados por uma criança de três anos. E, mesmo com tamanha diferença de idade, a compreensão de seus sentimentos é perfeitamente crível, tendo em vista a forma com que a narrativa é conduzida para estarmos o mais perto possível de Amélie em todos os momentos.
A memória é o tema principal e o filme nos convoca para viver tudo intensamente, um dia após o outro, para que só assim consigamos aproveitar a beleza do cotidiano, que muitas vezes deixamos de lado pela correria do percalço diário. “Quero ver tudo, sentir tudo. Dar todo o amor possível. Cheia de paixão, escrever cada capítulo da minha existência. Com os olhos bem abertos”, proclama a protagonista, com uma consciência que dialoga diretamente com os telespectadores mais velhos, já exaustos da mesmice e que mal conseguem ver o que há de belo por aí. A Pequena Amélie é mais do que uma experiência audiovisual, mas também uma constatação do que é a vida, e nos mostra o quanto ela pode ser bonita e divertida de ser experienciada, apesar das eventuais dificuldades que surgem.
Todos os vencedores da categoria desde a criação:
- 2002: Shrek
- 2003: A Viagem de Chihiro
- 2004: Procurando Nemo
- 2005: Os Incríveis
- 2006: Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais
- 2007: Happy Feet: O Pinguim
- 2008: Ratatouille
- 2009: WALL-E
- 2010: Up: Altas Aventuras
- 2011: Toy Story 3
- 2012: Rango
- 2013: Valente
- 2014: Frozen: Uma Aventura Congelante
- 2015: Operação Big Hero
- 2016: Divertida Mente
- 2017: Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
- 2018: Viva – A Vida é uma Festa
- 2019: Homem-Aranha no Aranhaverso
- 2020: Toy Story 4
- 2021: Soul
- 2022: Encanto
- 2023: Pinóquio por Guillermo del Toro
- 2024: O Menino e a Garça
- 2025: Flow
Vinicius Orza
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