Por Cultura Plural
Foto: Julia BusarelloPor Julia Busarello e Mariany Antunes
O Centro de Referência da Mulher Brasileira sediou, nesta sexta-feira (6), a peça “O que eu deveria ser se não fosse quem eu sou”. A apresentação, em formato de monólogo, conta com interpretação em libras e retrata a história e os sentimentos de mulheres que vivenciam relacionamentos abusivos e sofrem diferentes tipos de violência, como física, psicológica, verbal e sexual. A proposta do espetáculo é incentivar a busca por ajuda e dar visibilidade às garantias previstas na Lei Maria da Penha.
A apresentação acontece às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, data que reforça debates sobre os direitos e o enfrentamento à violência de gênero. Por meio da arte, o monólogo propõe uma reflexão sobre situações que muitas vezes permanecem silenciosas dentro das relações.
Durante o espetáculo, a personagem interpretada por Michella França narra e representa, por meio de gestos que lembram uma coreografia, as situações mais marcantes vividas ao longo de 15 anos presa em um relacionamento que, até certo ponto, a protagonista não reconhecia como abusivo. Os sentimentos e angústias da personagem são evidenciados tanto na linguagem verbal quanto na corporal, além do figurino da atriz, que simboliza os momentos em que ela sofria violência física e tentava se desvencilhar do cônjuge.
“Naquela época nem existia a lei da Maria da Penha […] e mesmo que existisse eu estava disposta a perdoá-lo”, narra a personagem após sofrer um aborto causado por tamanha violência. Durante a história nota-se o quanto aquela mulher perde o sentido da própria existência. “Foi então que decidi me separar, não dele, mas sim da vida”, ressalta a personagem.
Michella, também dramaturga e diretora da peça, explica que a ideia surgiu a partir da observação de diferentes histórias vividas por mulheres. “Eu queria muito escrever alguma coisa sobre a mulher, pensando em todos os casos que a gente vê na televisão e em várias histórias, inclusive de amigas. As histórias acabam se misturando e parecem uma só, porque se repetem”. Ela explica que a escolha de ser um monólogo é justamente para dar mais foco para a figura feminina, e para ser algo diferente do que as pessoas costumam ver no audiovisual.

O espetáculo integra o projeto “Mulher, Consciência e Ação”, iniciativa criada em 2019 que busca promover reflexões sobre a violência doméstica por meio da arte e de ações informativas, com o incentivo do Programa Municipal de Incentivo Fiscal à Cultura (PROMIFIC). A proposta é utilizar o teatro como conscientização e incentivar mulheres a buscarem apoio.
David Dias, assistente de direção e sonoplasta da encenação, observa que o principal objetivo da peça é ser um despertar para a mulher que está assistindo e talvez não reconheça o que está vivendo como violência. “Mas para o público masculino é mais importante ainda, caso alguém se reconheça como agressor, porque a agressão não é só física, ela pode ser psicológica, pode ser moral. E muitos homens cometem violência e nem se dão conta”, analisa.

Para o público, a montagem causa reflexão e desconforto. Thais Aniskievicz, assistente social, relata: “Quando a gente vê essa peça, a gente se sente angustiado por ver que tantas mulheres estão nessa mesma situação. Nós atendemos mulheres que sentem exatamente esse sentimento”.
O Centro de Referência da Mulher Brasileira oferece apoio psicológico, jurídico e social às vítimas de abuso. A coordenadora do centro, Tania Sviercosky, conta que casos como o apresentado estão presentes na instituição. “O trabalho aqui é justamente esse, de conscientizar e acolher”, finaliza.

Michella relata que já foram realizadas mais de 200 apresentações em diversas cidades do Paraná. Ainda durante o mês de março, estão previstas mais dez sessões em diferentes regiões de Ponta Grossa. As apresentações acontecem em unidades do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) nos bairros Jardim Paraíso, 31 de Março, Nova Rússia, Costa Rica, Sabará, Vila Isabel, Santa Luzia e Coronel Cláudio, além de uma sessão na Legião da Boa Vontade (LBV).
“O tema é pesado, a peça é pesada, mas é o que acontece. E é o que a gente queria mostrar, que é esse ciclo, essa vai e volta”, conclui França.