Por Fabio Aníbal Goiris
O jornal Folha de São Paulo (29 de novembro de 2025) esclarece uma antiga questão sobre a mitologia da América do Sul. O diário brasileiro afirma que o mito do ‘Saci-pererê’ não é originário de uma única cultura. Ao contrário, provêm de uma mistura de diversos elementos culturais e de mitologias de povos indígenas, africanos e europeus. Pode-se dizer, no entanto, que sua origem (essencial e mais remota) vem diretamente da cultura dos Guaranis, um povo indígena que habitava principalmente a região do atual Paraguai. O próprio nome ‘Jasy jatere’ (‘pedaço de lua’ em idioma guarani) tem origem nessa antiga cultura.
O Jasy jatere (ou Yasy yatere, na escrita mais antiga) é, pois, uma lenda mitológica das nações Guarani primitivas, representada por uma espécie de duende (ou espírito) que emerge nas selvas do ‘Paraguai profundo’. Este duende da floresta é um menino muito jovem, loiro e que aparece no bosque após o meio-dia. A sua presença é geralmente aterrorizante, pois seu assobio é ubíquo, quase onipresente; sua voz perto do inaudível e afetada por um ceceio na pronúncia. Mas, o que assusta mesmo é sua metamorfose, já que pode se transformar, em um segundo, em pássaros ou plantas da região. Por ser loiro, ele também é chamado de ‘Cuarahy yara’ ou “Dono do sol” (ver figura 1 e 2). Os nativos costumam lhe deixar presentes para acalmá-lo em seus momentos de ira, como mel (‘eíra’), cana-de-açúcar (‘guari’) e tabaco (‘pety’).
Seu papel benigno, pacificador e protetor consiste em cuidar da natureza, dos animais e das plantas. O Jasy jatere fica furioso e agressivo ao perceber as matanças de animais indefesos por caçadores e os serrotes derrubando árvores antigas. A única defesa contra o duende enfurecido é usar no peito um crucifixo feito de “pindó caraí” (uma folha longa e fina, abençoada na igreja). Nas fotografias abaixo, observa-se duas imagens do Jasy jatere da mitologia Guarani, do Paraguai.

Na mitologia brasileira, o Saci-Pererê, que teria sua genealogia no antigo mito do Jasy jatere (dos guaranis primitivos), surge como um duende com características antropomórficas completamente diferentes. Primeiramente, o Saci-Pererê, do Brasil, tem pele negra (“um menino negro”, como dizem os autores). Este fato seria justificável dada a composição racial negra do Brasil (cuja linhagem inicial está na África). Além disso, o Saci-pererê tem apenas uma perna. Essa característica (creditada à mitologia africana) vem da capoeira. Uma dança ou arte marcial amplamente praticada por africanos escravizados, que inclui saltos, golpes com as pernas e manobras aéreas. Acredita-se que o Saci-pererê perdeu uma perna em uma luta de capoeira. Sem esquecer que o cachimbo do Saci (para fumar tabaco) também é um legado da mitologia africana. Ademais, o capuz vermelho do Saci, uma de suas fontes de poder, teria origem na mitologia popular portuguesa (Figura 3). O Saci-pererê é, pois, um duende que defende a floresta e os animais.

O Saci-pererê é uma das figuras mais famosas e importantes do folclore brasileiro. No Brasil, o dia 31 de outubro foi instituído oficialmente como o Dia do Saci-pererê (Projeto de Lei federal nº 2.479/2003), por se tratar de um duende que protege a floresta tropical e seus animais. No entanto, o escritor Monteiro Lobato, que popularizou o Saci-pererê em seus escritos (publicou ‘O Saci’, em 1921), certamente cometeu um erro ao retratar o mitológico duende negro quase como uma caricatura (“bagunceiro e travesso”). Deixou de ser o mito protetor, misterioso e onipresente de animais e plantas.
Emerge, pois, uma evidente diferenciação. No Paraguai o mito do Jasy jatere mantêm sua presença e sua ‘verdade’ através dos séculos. É um mito que não se ensina como parte da história ou como um elemento do folclore. O mito do Jasy jatere é entendido praticamente como uma história viva. A sua presença espectral é contada ainda hoje no dia-a-dia das pessoas. No silencio da ‘siesta’, após o meio-dia, a selva paraguaia é ainda dominada pelo respeito e reverencia devotados ao Jasy jatere (ao seu longínquo assobio e sua aterradora metamorfose). As crianças sabem que não se pode destruir a floresta, porque ali é a moradia de Jasy jatere.
O escritor indígena Olivio Jekupé, autor do livro “O Saci verdadeiro”, publicado em 2006 pela Editora Eduel (Editora da Universidade Estadual de Londrina), diz que nas parcialidades guaranis da América do Sul o mito do Jasy jatere não é classificado como folclore, justamente porque ainda faz parte da crença. Contrariamente, o mito do Saci-pererê, no Brasil, passou a ser entendido apenas como uma entidade folclórica. Assim, ao entrar na seara do folclore, o mito original do Saci-pererê pode ter sofrido os efeitos das incorporações e alterações cada vez mais comuns, inclusive por efeito do próprio capitalismo.
Nesse sentido, Monteiro Lobato teria alterado a condição do Saci-pererê original. Ou seja, teria corrompido sua condição de mito aterrorizante e misterioso (tal como continua sendo o caso do mito do Jasy jatere, da cultura guarani), para inseri-lo no contexto do famoso Sítio do Picapau Amarelo. Qualquer travessura, gracejo ou traquinagem observada no cotidiano passou a ser entendido como “coisa de Saci”. Talvez o objetivo de Lobato tenha sido adaptar ou adocicar o mito do Saci ao gosto do público infantil de um Brasil já altamente consumista. Cabe acrescentar que o ‘Sítio do Picapau Amarelo’ é uma série de 23 volumes de literatura fantástica, escrita por Monteiro Lobato (entre 1920 e 1947).
Desde outro ponto de vista, já foi explicitado que, no Brasil, o dia do Saci é festejado no dia 31 de outubro que é justamente o dia de Halloween, ou ‘dia das bruxas’, na cultura norte-americana. É possível perguntar: esta coincidência de datas é uma tentativa de, mediante a homogeneização cultural, abrasileirar o halloween? Um grupo de jornalistas e intelectuais acredita que sim. Ou seja, que uma das formas de resgatar e valorizar as raízes culturais é justamente abrasileirar o halloween. Frases jocosas foram criadas para defender essa ideia: ‘arteiro que só ele, o Saci-pererê quer dar um jeito de se apropriar das abóboras do Halloween’.
Contrariamente, outros autores como Andriolli Costa — pesquisador de folclore e criador do projeto “O Colecionador de Sacis”, considera que a cultura estrangeira, impulsionada pelo imperialismo económico e cultural e que incorpora forte influência da cultura pop (presente em filmes, séries, música e livros), acaba ofuscando as figuras do folclore brasileiro (Figura 4). Assim, o pesquisador conclui que: “Ainda hoje, há quem ridicularize as entidades do folclore, limitando-os a uma representação meramente figurativa. Essas pessoas tendem a considerar nossas tradições ‘ridículas’ e a valorizar o que vem de fora, justamente por serem elementos estrangeiros já amplamente mediatizados e, portanto, vistos sob uma ótica diferente. A proposta do Dia do Saci, então, surge como uma forma de desafiar essa visão, forçando as pessoas a relembrar e valorizar o Saci”.

Pode-se concluir que persiste uma lendária dualidade. Por um lado, o mito do Jasy jatere, da cultura guarani, não tem sido exposto ou entregue ao canto das sereias do capitalismo tardio. O menino loiro, de assobio refinado e metamorfismo assustador e misterioso, continua reinando nas selvas do Paraguai, protegendo-as. Ao mesmo tempo, o Jasy jatere não entrou no (ou não aderiu ao) espectro do mero folclore, uma vez que ainda representa uma história viva, que é contada para crianças e adultos até os dias de hoje. Depreende-se deste conceito que o folclore pode ser mais facilmente modificado pelo “meio ambiente utilitarista” do que a história viva de um mito como o Jasy jatere. Uma mitologia popular transformada em lenda viva que se ancora na tradição e ali permanece.
Por outro lado, o Saci-pererê, parente mitológico mais próximo do Jasy jatere, parece ter perdido sua aura de mito aterrador e misterioso. Isto aconteceu sob os efeitos de um capitalismo clássico e globalizante, que historicamente não aceitava que o Saci-pererê sempre foi um aliado incondicional dos escravos negros. Assim, o mito do Saci, o protetor das selvas brasileiras, virou apenas um menino travesso e trambiqueiro. Seja como for, o Saci-pererê conseguiu se transformar, no entanto, numa das figuras mais icônicas e populares do folclore brasileiro. Conhecido por ser um menino negro com uma perna só, ele usa um gorro vermelho, fuma cachimbo e não fala inglês.
* O autor é professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Graduado em Direito (CESCAGE), mestre em Ciência Política (UFRGS), realizou curso de Sociologia Política na Universidade de Londres. Publicou diversos livros.
Uma entrevista embaixo de uma árvore no pátio do campus central da Universidade Estadual de Ponta Grossa foi capaz de evidenciar tantos detalhes de uma história que está presente nas 251 páginas do livro Prisão Sem Muros. Uma mistura de sentimentos, memórias e experiências que revelam angústias e superações. Em forma de diário, a obra perpassa a luta pela vida de um ex-dependente químico. Entre as linhas, o autor não hesita em mergulhar na poesia através de um diálogo com tudo o que já viveu. A busca de um sentido para a existência levou o autor Reinaldo Glusczka a conhecer caminhos e trajetórias diferentes daquelas em que ele estava inserido. A universidade foi o espaço ideal para uma conversa com alguém que queria fazer parte dela.
Nascido no banheiro do Terminal Rodoviário de Ponta Grossa, Reinaldo foi adotado por uma família com origens ucraniana e polonesa ainda criança. Sua mãe biológica era usuária de substâncias psicoativas. Medos e preconceitos fizeram parte da vida de Reinaldo desde a infância. Durante a entrevista, ele fala da época com um tom de tristeza quando relembra que sofria bullying por ter sido adotado por apenas uma mulher e por não ter uma figura que representasse o papel de pai.
Início de tudo
“Foi aí na infância que começou todo um processo de exclusão por parte de outras crianças que resultou na obesidade e no conhecimento do álcool. Eu já bebia direto nos finais de semana. Por exemplo, a primeira vez que eu bebi e perdi o controle eu tinha 12 anos. Foi num casamento de família.
Além disso, eu estava inserido num contexto social onde pessoas do grupo familiar e escolar faziam uso de substâncias. E não é porque minha mãe não me amava que ela me deixava ali, mas porque ela precisava trabalhar. Ela era uma mulher incrível, mas infelizmente eu tive contato com isso muito cedo.
A primeira vez que eu experimentei a maconha eu tinha 13 anos. Com 14 eu comecei a usar inalantes e segui por anos fazendo o uso de thinner, cola, solvente, até eu quase perder meu pulmão.”
Vício e saúde
“Eu ficava cerca de 12 horas cheirando as substâncias. Quando fui ao médico ele me falou que se eu continuasse assim, ia arrancar metade do meu pulmão. Mas, depois disso, eu conheci a cocaína. Quando isso aconteceu, parece que foi um despertar, sabe? Era como se faltasse uma peça no meu quebra-cabeça e ela fosse o uso. Eu injetava muita cocaína, até compartilhava seringas, principalmente durante um surto de HIV na cidade, mas não fui contaminado.”
Prisão e consequências do uso
“Com 18 anos eu fui preso por causa de um assalto à mão armada. Na esquina da UEPG, vi uma mulher passando e peguei a bolsa dela. Eu lembro que estava muito bêbado e quando saí correndo, para comemorar o furto, eu quebrei o retrovisor de um carro. Na hora que fui enquadrado por isso, olhei para a universidade e falei que um dia eu ia estudar aqui. Fiquei 80 dias preso e paguei serviço comunitário, mas quando saí, voltei para o uso frenético porque eu estava com muita vontade.
Com 19 anos eu quase tive uma overdose por inserir cocaína demais, tomar 7ml na seringa, que é quase uma seringa inteira de insulina. No outro dia eu fui me internar porque eu vi que eu ia morrer. Foi a primeira vez que eu fiquei dois anos sem usar substâncias.”
Início das mudanças
“Foi aí que eu fiz o vestibular e passei no curso de Licenciatura em História aqui na UEPG, em 2005. Então, fiquei dois anos sem usar nada, conheci minha ex-esposa, tive minha filha e já me separei. O processo foi muito rápido. Quando me separei, conheci o crack e nunca mais tive paz na minha vida. Eu usei durante 15 anos e foi o mais compulsivo. Eu perdi tudo mesmo, a ponto de ficar vivendo na rua. Além de ter perdido o contato com a minha filha. Inclusive, quero até deixar um pedido de desculpas porque ela faz muita falta. Eu amo ela, eu já pedi perdão ela já disse que me perdoou e tudo, mas é ela lá e eu aqui, então a gente não tem contato.
Eu cheguei a pesar uns 49kg, tive costela quebrada e perda do controle das funções intestinais. Era horrível. E foi quando eu decidi que não ia mais viver daquele jeito porque chegou um momento que eu falei que ou eu parava ou me matava, porque já não aguentava mais tanto sofrimento. Eu já estava com 37 anos quando decidi reconstruir a minha vida e passei quatro anos sóbrio.”
Superação e nova vida
“Agora, estou indo para sete anos em sobriedade. Consegui formar uma família novamente e voltar a estudar. Sou mestrando em História pela UEPG, faço voluntariado em algumas instituições como é o caso da Pastoral da Sobriedade. Também consegui uma bolsa por demanda social pela UEPG para conseguir estudar. Também atuo como professor colaborador na Federação Nacional de Terapia Holística em Dependência Química. Então, eu faço trabalhos voluntários, eu tenho uma família, eu tenho uma casa. Eu sou o cara mais feliz do mundo.
Quando eu pedi para nós termos essa conversa, é porque não é o Reinaldo falando. Eu sou uma pessoa que representa milhões de brasileiros, entende? Represento um número infinito de pessoas que entram diariamente no mundo das drogas.”
A entrevista
Em busca de representatividade, Reinaldo mergulhou na sua própria história. Em certos momentos, demonstrava os mínimos detalhes de tudo que aconteceu. O livro Prisão Sem Muros, para ele, é um desabafo.

Glusczka traz a experiência de um ex-dependente químico como forma de combater estigmas sociais e tabus que são associados às drogas. Ele fala sobre a luta por sobrevivência em meio a um testemunho de dificuldades. Os sonhos para o futuro permanecem e os ensinamentos também. Hoje, ele é capaz de contribuir para a vida de outras pessoas, por meio da religião e do apoio.
Reinaldo procurou essa entrevista com o objetivo de mostrar a superação, mas acima de tudo, testemunhar que a dependência pode ser combatida e que o apoio familiar e social é essencial. “Quando eu consigo ter um meio para falar sobre isso, eu me fortaleço, porque eu descobri que eu só consigo viver em sobriedade quando eu falo de sobriedade.”

Em caso de busca por ajuda para enfrentar o vício das drogas, ele disponibiliza o contato para prestar qualquer apoio: (42) 99663-5909.
Em algum lugar desses anos,
existiu uma menina que usava
vestido rosa e roupas de bolinha.
Ela amava monster high, suco de goiaba
e a sua companheira mais fiel, Pituka.
Essa menina sonhou muito,
dançou, escreveu cartas de amor
e acreditava que a vida era um filme.
É por essa menina
que eu sempre tento mais uma vez.
Ah, como eu queria voltar no tempo
e sentir o privilégio de não saber
como o mundo realmente funciona.
Onde a tristeza era temporária,
os problemas não existiam
e estresse nem era uma palavra conhecida.
Quero realizar todos os sonhos
que ela escrevia em seu diário secreto,
conhecer todos os lugares
que desenhou nas folhas de sulfite
que hoje nem existem mais.
Quando eu era criança,
eu sonhava em salvar o mundo…
Como será que essa criança
me olharia agora?
Quero, nem que seja por um instante,
ter o mesmo brilho nos olhos
que ela tinha.
O Museu Campos Gerais, em parceria com o curso de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa, idealizou o projeto Rota Preta PG, que integra a população ao passar por espaços culturais onde houve manifestações da cultura preta em Ponta Grossa. Alguns elementos da rota são o Clube 13 de Maio, escolas de samba, a praça da catedral, o Clube Verde, terreiros e a ferrovia que corta a cidade.
O Clube 13 de Maio é considerado um ponto chave no trajeto. Criado em 1890 com objetivo de letramento, é um clube social negro, que auxiliava na formação dos associados. “O clube é um espaço de resistência da população negra. É um espaço racialmente demarcado, que responde à exclusão dos indivíduos pretos e pardos recém libertos”, explica a professora e doutora em História Merylin Ricieli dos Santos, responsável pela execução do projeto.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), patrimônio cultural é composto por monumentos, conjuntos de construções e sítios arqueológicos, de fundamental importância para a memória, a identidade e a criatividade dos povos e a riqueza das culturas. Em Ponta Grossa, diversos espaços são tombados, mas nem sempre toda a população é integrada.
“Quando falamos em patrimônio, as pessoas pensam naquele estereótipo de conservação de casas europeias. Existe uma resistência muito grande da população de superar essa visão sobre patrimônio”, diz a arquiteta e urbanista, especialista em patrimônio histórico, Giovana Paganini. Ela ressalta que falta educação patrimonial para a população, para que seja possível reconhecer patrimônios e desconstruir a visão atrelada a monumentos e casas. Os trajetos da Rota Preta PG são realizados de forma esporádica e as inscrições podem ser realizadas através das redes sociais do Museu Campos Gerais.
Por Victoria Fonseca
O número de visitas presenciais a museus teve aumento no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). No ano passado, alguns registraram recordes de visitantes, como por exemplo o Museu Oscar Niemeyer, no Paraná, com 712 mil pessoas, aumento de 41% em relação a 2023. Por outro lado, a falta de recursos e reformas ocasionou o fechamento de 10% das instituições em todo país em 2025, segundo o IBRAM.
Para a museóloga Samara de Lima, a maior dificuldade enfrentada pelos museus é a falta de recursos para manutenção. “O poder público nem sempre prioriza a manutenção dos prédios históricos. Muitas vezes, as intervenções são pontuais e não resolvem a deterioração dos monumentos”. A museóloga considera que a falta de formação de novos públicos, sobretudo crianças, ocasiona a falta de interesse para visitas. “Se houvesse políticas públicas que levassem para as escolas a história local e regional, despertaria o interesse nas crianças na educação patrimonial para a preservação dos locais”.

Ponta Grossa possui sete museus em atividade, o mais recente inaugurado em 2023. A maioria do público vem de escolas. O secretário de Cultura da cidade, Alberto Portugal, destaca que os espaços públicos educam e preservam o interesse da população pela cultura local. “Uma criança que vai com a escola em um museu conta para a família o que viu e ela passará também a conhecer a história local, o que contribui para preservação e memória”.
Piraí do Sul possui o Museu Ricardo Martins Szesz Filho, que preserva a história da cidade, com foco no tropeirismo. Apesar de morar próxima ao prédio, Stefany Mello não sabia que se tratava de um museu. “Apesar de estar sempre aberto como dizem, eu nunca vi ninguém ali e nem como visitar. Falta divulgação para que mais pessoas possam conhecer a história do nosso município”.
Faz apenas dois anos que o 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra, se tornou feriado em todo o Brasil. Mas a origem da data remete ao ano de 1695, ano em que Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, foi assassinado.
A idealização por um dia de conscientização pela negritude no Brasil teve origem em Porto Alegre, em 1971, em plena Ditadura Militar. Partiu de estudantes e militares negros, que discordavam da celebração de 13 de maio, data da assinatura da abolição da escravatura pela princesa Isabel.
O coletivo de jovens negros, autonomeados Grupo Palmares, adotou a história de Zumbi dos Palmares como referencial de luta e resistência negra. Segundo a Agência Brasil, agência pública de notícias, Zumbi dos Palmares nasceu livre em torno de 1655. Foi capturado durante uma tentativa de destruição do quilombo e dado a um padre. Recebeu o nome de Francisco, aprendeu latim e português, mas, aos 15 anos fugiu e retornou a Palmares, onde adotou o nome de Zumbi.
Dez anos depois, tornou-se líder da resistência contra os ataques portugueses. Mesmo ferido, resistiu por cerca de um ano escondido na mata. Em 20 de novembro do ano seguinte, Zumbi foi encontrado, morto e esquartejado pelas tropas portuguesas.
O Dia da Consciência Negra, também chamado de Dia de Zumbi dos Palmares, até 2023, era adotado como feriado em apenas alguns estados, incluindo Alagoas, onde fica o quilombo. Hoje, a data é celebrada em todo o país para lembrar as origens e resistência do povo preto (negros e pardos), que compõe mais de 55% da população brasileira, segundo o último censo IBGE.
A idealização por um dia de conscientização pela negritude no Brasil teve origem em Porto Alegre, em 1971, em plena Ditadura Militar. Partiu de estudantes e militares negros, que discordavam da celebração de 13 de maio, data da assinatura da abolição da escravatura pela princesa Isabel.
O coletivo de jovens negros, autonomeados Grupo Palmares, adotou a história de Zumbi dos Palmares como referencial de luta e resistência negra. Segundo a Agência Brasil, agência pública de notícias, Zumbi dos Palmares nasceu livre em torno de 1655. Foi capturado durante uma tentativa de destruição do quilombo e dado a um padre. Recebeu o nome de Francisco, aprendeu latim e português, mas, aos 15 anos fugiu e retornou a Palmares, onde adotou o nome de Zumbi.
Dez anos depois, tornou-se líder da resistência contra os ataques portugueses. Mesmo ferido, resistiu por cerca de um ano escondido na mata. Em 20 de novembro do ano seguinte, Zumbi foi encontrado, morto e esquartejado pelas tropas portuguesas.
O Dia da Consciência Negra, também chamado de Dia de Zumbi dos Palmares, até 2023, era adotado como feriado em apenas alguns estados, incluindo Alagoas, onde fica o quilombo. Hoje, a data é celebrada em todo o país para lembrar as origens e resistência do povo preto (negros e pardos), que compõe mais de 55% da população brasileira, segundo o último censo IBGE.
Fontes:
Por Amanda Los
Quem envelhece com orgulho, inspira quem cresce com coragem é o slogan da oitava edição da Parada LGBTQIAPN+ dos Campos Gerais. Segundo a organização, a escolha do tema segue o movimento nacional das paradas de Curitiba e São Paulo e busca valorizar o público LGBT de todas as faixas etárias, principalmente o que está envelhecendo.
“O slogan é um reconhecimento da luta e dos direitos conquistados pela população LGBT mais velha”, afirma Guilherme Portela, participante da comissão organizadora do evento. Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 aponta que das 2,9 milhões de pessoas que se autoidentificam como homossexuais ou bissexuais no país, 71 mil são idosas. “Devemos celebrar nossa resistência histórica, já que diversas pessoas LGBT não tiveram suas vidas preservadas o suficiente para alcançar a velhice por questões sociais, políticas, de violência e de saúde”, ressalta Portela. No Brasil, a expectativa de vida de pessoas trans e travestis é estimada em cerca de 35 anos.
Ulisses Massinhan, homem gay de 53 anos, observa mudanças nos últimos 30 anos, mas considera que ainda há muito a ser feito. “Na minha faixa etária, são poucos os sobreviventes. Entre os mais velhos, o número é ainda menor, o que é assustador”, desabafa. Segundo ele, as pessoas LGBT 50+ enfrentam resquícios psicológicos de uma época em que eram menos reconhecidos e respeitados, além de problemas de saúde, solidão, e a ausência de políticas públicas específicas para essa população. Conforme pesquisa da Associação Americana da Pessoa Aposentada (AARP), 46% dos homens gays na terceira idade moram sozinhos. Entre as mulheres lésbicas, 39% são solteiras e 36% vivem sozinhas.
De acordo com Massinhan, esses problemas apontam para caminhos que ainda devem ser trilhados. Para ele, o evento já é uma conquista que a ser celebrada. “A existência de um evento como a parada representa a possibilidade de as pessoas mostrarem quem realmente são”, destaca.
A oitava edição da Parada LGBTQIAPN+ dos Campos Gerais ocorre no dia 7 de dezembro, das 12 às 20 horas. Além da manifestação a favor dos direitos das pessoas LGBTQIAPN+, a programação contará com apresentações musicais e culturais de mais de 40 artistas. O evento inicia na Rua XV de Novembro, em frente ao Cine-Teatro Ópera, e depois marcha em direção à Concha Acústica da Praça Barão Rio Branco. Mais informações podem ser acessadas na perfil do Instagram @paradalgbtpg.
A literatura paranaense ganha uma nova oportunidade: estão abertas, até 30 de novembro de 2025, as inscrições para o 3º Concurso Literário de Autores Paranaenses da Biblioteca Gralha Azul, projeto realizado pela editora ABC Projetos Culturais por meio da Lei Rouanet.
Criada para revelar e valorizar escritores e escritoras do estado, a Biblioteca Gralha Azul disponibiliza gratuitamente e-books e audiolivros em seu site, democratizando o acesso à leitura e ampliando a circulação da produção local. Nesta edição, o concurso vai selecionar entre 10 e 20 textos inéditos voltados ao público infantojuvenil, que serão transformados em livros digitais ilustrados e audiolivros.
Podem participar autores nascidos ou residentes no Paraná, com 18 anos ou mais, iniciantes ou profissionais. A temática é livre, e os textos podem ser em prosa ou poesia, desde que inéditos, autorais e sem uso de inteligência artificial. Cada participante pode enviar apenas uma obra, sem identificação no arquivo, garantindo avaliação imparcial pela curadoria.
A inscrição é gratuita e deve ser feita exclusivamente pelo formulário online. Os textos selecionados passarão por revisão, diagramação, ilustração e ganharão ISBN, sem nenhum custo para o autor. Embora o edital não preveja premiação em dinheiro, os escritores manterão seus direitos autorais e poderão divulgar e comercializar a obra em outras plataformas, paralelamente à versão gratuita disponível na Biblioteca.
Mais do que um concurso, a iniciativa busca incentivar novas vozes, fortalecer o cenário literário paranaense e aproximar crianças e jovens da leitura. A lista dos selecionados será divulgada no site e nas redes sociais da Biblioteca Gralha Azul e da ABC Projetos Culturais.
Informações e inscrições: www.bibliotecagralhaazul.com.br
Período: 30 de outubro a 30 de novembro de 2025
Por Luciana Scherner
As expressões “museu é lugar de coisa velha” e “quem vive de passado é museu” estão prestes a perder o sentido. Pelo menos em Ponta Grossa. A iniciativa Museu Escuta, do Museu Campos Gerais (MCG), quer aproximar o público de pessoas cujo acervo são suas memórias, sua história, seu conhecimento, muitas vezes acumulados por anos. O projeto ligado ao currículo extensionista da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) realizou sua primeira rodada de entrevistas públicas em outubro e estão previstas novas conversas, oficinas e histórias orais até 2026.
Para Robson Laverdi, diretor de acervo do museu, o Museu Escuta contempla várias dimensões. A primeira delas é oportunizar um espaço de fala e escuta para pessoas e grupos invisibilizados e injustiçados social e historicamente. “Escuta é diferente de ouvir. Escuta é um gesto ético, é ação que promove a inscrição de outras vozes, reconhece trajetórias vividas que são trazidas para dentro do museu”, explica o idealizador do projeto, com mais de 30 anos de experiência em história oral.
Outra camada, segundo Robson, é fazer isso através de um processo formativo, com metodologia e ética. “Não dá para fazer isso só trazendo essas vozes sem ensinar como ouvi-las. Por isso a necessidade não só de gerar as entrevistas públicas, as rodas de memória, mas também trazer um processo de formação de público.”

Como parte do currículo extensionista de graduação, um novo ethos do profissional de História e de outras áreas de conhecimento estão sendo transformados. O desafio dos acadêmicos é a coprodução de conhecimento acessível para a comunidade. As falas dos ciclos de oralidade farão parte do repositório digital de acervos e materializadas na escrita da história do MCG, que deve ser publicada em livro.
Texto: Luciana Scherner (@lucianascherner)
“Mas a pior dor é a dor da fome, porque a dor da fome dói no corpo e dói na alma”, recorte de Carolina Maria de Jesus, migrante, mãe solteira e moradora da primeira grande favela de São Paulo, a Canindé, ilustra a fome como uma das mais intensas formas de sofrimento através de seu diário Quarto de despejo, publicado em 1960. Baseado nas poesias da escritora, o Grupo Teatral ApanelA, de Ribeirão Preto-SP, se apresentou no 53º Fenata na última terça-feira (11/11), na praça Santos Andrade.

A história narra com samba e descontração a realidade de pessoas marginalizadas que encontram no deslocamento para a cidade uma maneira de ascensão social. Os personagens encaram a profunda dor da fome, das violências, das desilusões amorosas e dos vícios. A realização de seus desejos e a busca da felicidade é um dos pontos fortes explorados pelos protagonistas historicamente invisíveis na sociedade.
No espetáculo, a poesia é retratada entre muitos aspectos culturais, exposto na atuação detalhada de alinhamento literário, no cenário construído em meio aos espectadores, na condução sonora com diferentes instrumentos da música brasileira e o cordel disponibilizado no final da apresentação. ApanelA esteve presente em Ponta Grossa em outros encontros como no festival Cacarejando Histórias do coletivo teatral Cacareco.
