Suor e sangue Esse jaleco pesacomo pesa o arado,esse estetoscópio marcacomo ferro quente na carne fria,tento me debater,mas é inútil,você é fraco,você é mercenário,você tem que fingir,você tem que ser cego! Algo grudento adere minha pele,parece a vergonha,parece a culpa,mas é o sanguedo paciente sobre a maca,o sangue,a marca da vida,o sangue,o anúncio da morte. […]
O escritor sofre,sofre em silêncioa desaprovação das palavras,sofre a solidãodo amor pelas linhas,do amorpela solidão. Estou diante do papelcomo o solo nuno deserto da alma,na profusão de sonhose medosque em mim vivem. O escritor vive isoladodas vozes do mundo,dos olhos da escuridão,dos temores sinceros,mas não vive longe do amorque vive em si. Vem cá,meu amor,quero-te […]
Há oito anos Há oito anosa felicidade é diária,não é apenas um espírito a rondar a casa,não é apenas um desejo distante,uma notícia que vem de longe. Há oito anosos sorrisos são diários,pois neles guardamos as lembranças,o amor é contínuoe os dias cheios de alegria permanente. Há oito anosestá mais fácil lutar,mesmo com os encontros […]
Quadrados O papel em brancome encara,como se a dívidanão estivesse ali,sem ser quitada,ele necessita de palavrasque timidamenteo preencham,e da bagunça mentalsurgem superfíciese formas. A manhã cinzaabstrai-me sonhos leves,chega às portasdo casteloe movimentaseus pesados sinos,comovido,deixo-me. E um talvezé um tom estranho,quando o vermelhosuspeita de umasexta-feira doce,e a dissonânciadiscorda de uma maneiratão bela aos meus ouvidos,posso sorrirpara […]
Clave de sol Mas a vidaninguém sabe,ninguém traduzem uma partitura,ninguém pinta sob óleo,não há palavraou mundo suficiente,viver range nos dentes. E o poema começaem uma oposição,e o que não se pensaem oposição,tudo que começase contrapõeem um ponto da linha,pois a linha é viver. A vidaé amar em tudo,é olhar para alguéme encontrarsuas respostas.
Da eterna poesia Às vezes escrevo por Deus,às vezes escrevo por mim,depois de tanto escrever,mal sei o que já escrevi. De súbito me vemuma vontade de desenhare as linhas entãotransformam-se em lar. Uma fala,uma falha,espalha o que falta. Uma sombra,um assombro,até sua volta.
Mar aberto O vento afaga minha face,uma necessidade de voar,dois anos passam no céue as nuvens desenham arcos. Bocejo,o que eu pensoem questão de segundosninguém nunca saberá,faço uma pausa. Poderia ser um domingoou uma Paris qualquer,cofio a barba,penso,deito atenção às vozes,sussurro um poema no ar,leio duas linhaspara encontrar.
Lágrimas do céu Sinta o cheiro da chuva,o gosto das pedras molhadas,o jeito dos homensdeitados sob o mundo,a falta no olhardas mães solitárias,tantos universosse misturam na chuva,na liquidez do mundo moderno,nas ilusões diárias. Um abraço que vem de mais,dedos e mãosperdidas no nosso sentimento,gosto de lembrardo som de quandovocê que está quase a dormir,das maneiras […]
O oceano Às vezes cansa, cara,eu não fui feito para dormir,eu durmo muito male não descanso no sono,às vezes até me canso. E às vezes cansa, cara,cansa e não recupera em uma noite,às vezes o frioserve de açoitee os corações friosvigiam as janelas. E quando cansaeu preciso,quando cansa eu necessito,e mais cansa,e mais cansa,e mais… […]
Parem as máquinas, imediatamente!Parem as guerras,parem o frioe os partos que agora ocorrem! Parem as manhãs e as maçãs,que crescem como soar do mundo novo.Parem os navios que seguem as correntes,parem os olhos que se guiam pelas estrelas. Parem condomínios,colmeias,cárcerese o cacarejar. Mas não parem com essa dor, que é inextinguível.Como posso ver e sentira […]