Arte: Amanda StafinPor: Maikon Scheres
As multidões, mesmo carregando nos corpos as próprias histórias pessoais de lutas e desafios, dormem solitariamente alimentadas pelos sonhos e obrigações diante das horas contadas e agendadas implacavelmente por seus chicotes despertadores-relógios-comunicadores neuróticos barulhentos, que logo proclamarão como apito de fábrica um novo dia de batalhas e cansaços.
Aqui, eu, insone, madrugada adentro, vestido com um sobretudo de lã pesado e velho todo esburacado pelos 25 anos de uso para aguentar o frio, sentado na cadeira almofada com travesseiros para aguentar a dor na coluna, apoiado na mesa de trabalho com os braços cansados e mãos doloridas, mais papéis, lápis minúsculos, xícaras de café preto amargo.
Assim, eu imagino, desenho cenários na mente, sons, cheiros, pessoas, risos, gritos, lugares, climas ensolarados, acontecimentos, silêncios, memórias reais ou inventadas. Escrevo, escrevo, reescrevo, reescrevo, corrijo sem pressa cada palavra, frases, sentenças, sentidos, com ouvidos atentos e afinados nas harmonias, desarmonias, ritmos e movimentos.
Pela manhã, que logo irá nascer, uma nova canção de palavras em imagens, sentimentos e sons dança dentro da minha mente que breve dará à luz. Mas praticamente quase todos não perceberão, notarão, não terão tempo para descobrir, pois as atenções estarão completamente voltadas no dia que se revela implacável, na dureza tão áspera do trabalho, promessas capitalistas mentirosas, salários miseráveis, acordos, desacordos, encontros e desencontros, decepções, agressões, amores e traições.
Desperto do sono da imaginação, escrevo, continuo a escrever, como sempre: sou maestro dos meus sonos insones e sonhos reais de escritor e mestre-escravo das palavras. Mesmo com os ruídos que atravessam a minha mente, meu coração cansado de esperar por leitores que um dia talvez descubram o meu trabalho, mais as preocupações com a carteira vazia, a pobreza, preocupado com os empréstimos não cumpridos no prazo estabelecido que realizei com os amigos, doenças, dores, angústias, ansiedades, depressões e solidões.
Ser escritor/escritora é nascer assim, é a marca de Caim, uma chaga, ninguém decide tornar-se profissional das palavras de uma hora para outra, por puro capricho, apenas para poder dizer por mera vaidade aos outros. Escritor é algo que se sabe desde sempre no íntimo, que se reconhece como algo estranho, esquisito, alienígena, desde o momento em que se percebeu como pessoa ou alguma coisa — mesmo que não admita para si e para os outros por pura vergonha e constrangimento, medo de parecer arrogante e vaidoso, talvez por pura humildade neurótica, sentimento de síndrome-de-impostor, baixa autoestima, cobrança por perfeição.
Escritor é estar acordado 24 horas por dia, 7 vezes por semana, 365/366 vezes por ano, sem pausas, feriados, dias santos. Em suma, nunca descansar, mesmo que as pessoas não percebam essa eterna insônia mental. É estar sempre alerta, desperto, curioso, observando tudo e todos, histórias pessoais, origens, modos, comportamentos, olhares, sorrisos, jeitos e trejeitos, palavras, gírias, ações, simulações, dissimulações, máscaras, ações, paixões, ilusões, fraquezas, covardias, medos, forças, sentimentos verdadeiros autênticos, coragens, virtudes.
Escrever é poder segurar por meros yoctosegundos o movimento implacável da vida e da eternidade.
Escrever é sempre fracassar!
Mas quão maravilhoso é enfrentar as palavras com coragem e poder fracassar com a alegria interior pelas batalhas possíveis.
Contato: maikonscheres@gmail.com