Por Cultura Plural
Por Névio de Campos
Leitor(a), tomamos a liberdade de partir de dois conceitos importantes das ciências humanas contemporâneas para trazer algumas impressões, que podem fazer muito ou pouco sentido. São impressões demarcadas por subjetividade, mas que podem se conectar a outras subjetividades e gerar alguma reflexão.
Em janeiro de 2026, realizamos uma rápida viagem à cidade de São Paulo. Em cinco dias, ocorre uma frenética e acelerada programação de visita cultural, com eleição de alguns lugares de memória (“os lugares de memória são, antes de tudo, restos”, conforme Pierre Nora) numa cidade complexa(sociedades complexas se caracterizam pela “coexistência de diferentes estilos de vida e visões de mundo”, consoante Gilberto Velho).
São Paulo, uma cidade complexa tal qual o sentido explorado pela antropologia urbana, apresenta-nos muita coisa para não incorrermos ao risco de usar o termo “de tudo”. O Largo deSão Franscisco nos reporta à presença secular da memória das “elites”, prefigurada à Catedral da Sé e à Faculdade de Direito, lugares de memória que rememoram e consagram grupos e instituições dominantes. No entanto, esses mesmos lugares apresentam suas fissuras, brechas da história, isto é, da luta, pois os lugares de memória sofrem alterações, mesmo que capilares, tal como se nota numa galeria indicativa dos nomes de mulheres professoras na histórica e imponente Escola de Ciências Jurídicas da capital paulista.
O Largo São Bento, muito próximo do Largo de São Francisco, também testemunha a presença do catolicismo, seja pelo imponente prédio da igreja, seja pela tradicional Faculdade de São Bento. Todavia, uma cidade complexa é muito mais do que os tradicionais lugares de memória. Ali mesmo se vê a expressão da cultura contemporânea das periferias (cultura hip-hop).
Próximo dali se encontra o Largo do Palácio, marcado pelo Pátio do Colégio. Lugar de memória da Companhia de Jesus. Entre tantos restos de memória, quem faz uma visita tem acesso a relíquias de José de Anchieta (para os católicos, São José de Anchieta) – simbolizadas por parte do úmero (no museu) e parte do fêmur (na capela). Expressiva de uma cidade complexa, bem ali, a metros da capela em que se aloja o fêmur de José de Anchieta, no número 148 do Largo, funciona o Museu das Favelas, desde novembro de 2025. Antes disso, desde novembro de 2022, data de sua inauguração, funcionou no Palácio dos Campos Elíseos. Não tão distante dali, nesta frenética viagem cultural, visitamos o Museu da Língua Portuguesa, no qual acontecia a exposição Funk: um grito de ousadia e liberdade, que também traz outros traços de uma cidade complexa. Não menos expressivas são as exposições do Instituto Moreira Salles, notadamente o olhar fotográfico do fotojornalista negro Gordon Parks que nos leva para o mundo de mulheres negrase de homens negros dos Estados Unidos, que praticamente não apareciam ou não aparecem nos tradicionais lugares de memória, ou do prisma fotográfico da francesa Agnès Varda que nos convida a ver, por exemplo, as lutas dos negros norte-americanos dos anos 1960.
Note, leitor(a), num circuito próximo é possível entrevermosos diferentes traços de uma cidade complexa ou sociedade complexa. Todavia, uma “pessoa avisada” poderá nos dizer: isso tudo se vê no cotidiano, na multidão de uma metrópole ou qualquer cidade. E de fato, devemos concordar com essa interjeição, não obstante, sem deixarmos de fazer uma emenda: e a situação de uma “pessoa desavisada”, isto é, de quem vê e não olha. A pluralidade está ali, mas pode passar sem ser percebida, sem ser reconhecida. Trabalhar o olharrequer uma ação deliberada, capaz de gerar sentidos em quem vê, em quem transita por lugares públicos ou privados. Nesse aspecto, um lugar de memória é uma intervenção deliberada em prol de um certo fim. Logo, a existência do Museu das Favelas, no centro histórico de São Paulo, nas imediações do Pátio do Colégio, gera um processo de formação mais amplo das pessoas, muito embora a visitação a todos esses lugares requer uma disposição incorporada (habitus) por parte de quem por ali circula. Isso remete à ideia de formação cultural, uma responsabilidade individual e coletiva, talvez expressiva de políticas públicas direcionadas a escolas e universidades. De todo modo, Museu das Favelas, ou exposição do funk no Museu da Língua Portuguesa, ou outros tipos de museu, simbolizam lugares de memória que funcionam como uma espécie de “vigilância comemorativa”, como antídotos à tendência de se privilegiar as memórias de quem detêmcontrole dos espaços de poder.
A esta altura, quem nos lê, talvez, já esteja se questionando: precisa ir a São Paulo para perceber tudo isso? Ou dito de outra forma: é possível perceber isso na cidade de Ponta Grossa? Parece que sim, caro(a) leitor(a). Vejamos rapidamente três situações: Agô: minha cidade tem saravá; Sobre vivências travestis; Rota Preta PG.
Os dois primeiros são documentários que trazem um olhar ao que podemos designar “diferentes formas de viver”. De um lado, egressos (Juliana Gelbcke, Felipe Soares e Guilherme Marcondes) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) dirigem o belíssimo documentário que apresenta vivências de religiosidade de matriz afro-brasileira numa cidade em que predominam práticas religiosas de origem cristã. De outro, a jornalista e professora Karina JanzWoitowicz, com a equipe do projeto Elos – Jornalismo, Direitos Humanos e Formação Cidadã da UEPG, coordena outro belíssimo documentário que retrata vivências de pessoas trans na cidade de Ponta Grossa. Outra experiência, que está ligada ao Museu Campos Gerais e conta com historiadores/asda UEPG, conecta de maneira significativa presente e passado à medida que nos convida a olhar os restos da memória e a reconhecer (ou se quisermos, a ver) a presença da cultura afro-brasileira na história de Ponta Grossa.
Logo, caro(a) leitor(a), a partir das produções cinematográficas (de fácil acesso no youtube) e dessa iniciativa do Museu Campos Gerais, Rota Preta PG, você poderá conhecer ou ampliar a percepção sobre a cidade de Ponta Grossa. Além disso, é importante dizermos que estes “lugares de memória” ou estas experiências de uma sociedade complexa evidenciam o papel fundamental das políticas públicas, a presença singular de uma universidade pública como a UEPG, a sensibilidade e competência de servidores públicos e pessoas da sociedade civil que levam adiante projetos com potencialidade para vermos ou percebermos “diferentes estilos de vida e visões de mundo”.
Portanto, seja numa metrópole como São Paulo, seja numa cidade menor como Ponta Grossa, podemos perceber elementos de uma “sociedade complexa”. Todavia, essa percepção precisa de mediação, pois é recorrente o apagamento de muitas identidades, notadamente identidades de grupos que não ocupam posições centrais e dominantes. Neste sentido, são fundamentais iniciativa como Museu das Favelas, exposição como Funk: um grito de ousadia e liberdade, documentários como Agô: minha cidade tem saravá e Sobre vivências travestis, além de ações como Rota Preta PG, pois podem nos retirar de nós mesmos e nos deslocar em direção aos outros. Trata-se de uma descentralização dos sujeitos ou das nossas próprias identidades e de um convite para nos dirigirmos a outros sujeitos ou a outras identidades, movimento fundamental para uma vivência fraterna. É o movimento identidade-alteridade, aspecto designado pelo historiador Paul Veyne de “saída de nós mesmos”. Este grande historiador francês diz: “a história, essa viagem ao outro, deve servir para nos fazer sair de nós, tão legitimamente quanto nos confortar em nossos limites”. Fazer esse movimento não é um caminho fácil, mas é necessário!
Caro(a) leitor(a), faz algum sentido isso tudo?