OSCAR 2023: Triângulo da Tristeza

OSCAR 2023: Triângulo da Tristeza

Ainda que a sequência de casting de modelos masculinos que abre o mais recente trabalho do diretor sueco Ruben Ostlund – ganhadora da Palma de Ouro em Cannes (2022) – seja interessante por apresentar a dinâmica de significação atrelada à exploração de corpos pela publicidade de grandes marcas do mundo fashion, ela engana na forte primeira impressão que dá ao filme.

A cena que realmente resume essa meditação acomodada e enfadada sobre a luta de classes – e o inevitável apocalipse promovido pela elite econômica mundial – é a seguinte: temos um grande e conceitual desfile onde o personagem Carl (Harris Dickinson) é alocado para as cadeiras mais ao fundo e vê modelos desfilando com a logo “a moda agora é o cinismo mascarado de otimismo” de forma estática e prolongada em demasia.

O que poderia ser um comentário pungente sobre a naturalização da exploração acaba por ser uma sinopse – talvez até um sinal de alerta para o espectador se retirar enquanto pode – de uma obra autocongratulatória que se contenta em expor o que é senso comum. E que demora um tempo absurdo de 2h30 para fazê-lo às custas da paciência do espectador.

O longa conta a história dos passageiros de um iate comandado pelo alcoólatra capitão Thomas (Woody Harrelson) e tem a equipe subordinada aos caprichos de oligarcas russos. O resultado é um par de venturas que colocam a dinâmica social do local em cheque.

O mais frustrante do longa de Ostlund é como direção e roteiro se aliam para criar uma experiência tediosa que sabota qualquer valor de suas aspirações. De um lado, o script faz questão de manter todos os personagens rasos em diálogos e ações pobres ou estereotipadas. O que garante que ninguém – com exceção do capitão e da camareira Abigail (Dolly De Leon) – seja minimante interessante. Não há um ponto de vista definido na obra, uma bussola moral para nortear o público ou alguém para ser minimamente o macguffin da trama anêmica.

Por ironia, no mesmo ano foi lançado O Menu (2022), onde tínhamos um cenário, tom e temas semelhantes, mas que permitia que o público se importasse ao centrar a personagem Margot (Annya Taylor-Joy) como nosso avatar no exótico e fanático mundo da alta culinária.

O segundo ato do roteiro esboça uma mudança quando se concentra na figura do capitão: Um adicto do álcool cínico e ciente das próprias hipocrisias e privilégios que duela ideologicamente com o magnata dos fertilizantes russo Dimitry (Zlato Buric) enquanto a tripulação é acometida por uma virose e o navio perde totalmente seu eixo de flutuação.

Thomas é o mais próximo que temos de um ponto de vista sincero no filme; e, por sua influência caótica criar um certo senso de perigo e suspense para a comédia, há junto dela uma esperança de que o filme deslanche divertidamente em sua descida ao absurdo. Infelizmente, o clímax do segundo ato reseta tudo e voltamos à fatiga de outrora.

Por outro lado, a direção, ancorada em planos médios repetitivos, estáticos e que se inibe de cortar cenas redundantes, complementa o pacote do tédio. É como se Ostlund quisesse emular o estilo seco dos Irmãos Coen e achasse que a distância física – portanto semioticamente ideológica também – das lentes bastasse. Ora, até mesmo os Coen, em toda a sua misantropia na forma de retratar o ser humano, sabem que a história – e suas interseções discursivas – ainda depende que o púbico se conecte minimante com os personagens através do estabelecimento de seus valores, objetivos e do que são capazes de fazer para alcança-los. Tudo através da linguagem cinematográfica que abrange planos abertos, médios e – algo decerto obsceno para Ostlund – close-ups para registrar suas reações, ímpetos e, quem diria, humanidade.

O fato do cineasta sueco assinar tanto roteiro quanto direção – e pior, ser indicado nas duas categorias no Óscar 2023 quando haviam nomes como Joseph Kosinsky, Sarah Polley e Charlotte Wells com competências muito mais evidentes – deixa tudo mais compreensível no resultado final, ainda que mais revoltante por denotar o quanto o votante médio da academia é tosco em sua percepção de temas sensíveis da atualidade.

Talvez aqui, na verdade, o grande objetivo não seja satirizar a vida da elite, e sim as expectativas do público acomodado e autocongratulatório que prestigia as sátiras padrão da luta de classes – uma piada metalinguística que deve ter arrancado urros eufóricos de “genialidade” na mesa do júri de Cannes, festival que frequentemente favorece discursos no lugar da eficácia na construção estético-narrativa.

Tal subgênero parece ter criado um despertar entre a imprensa e elite intelectual sobre os problemas da desigualdade após o efeito sensação de Parasita (2019). Mas em comparação com o triunfo narrativo-temático de Boong Jung Ho, Triangulo da Tristeza soa como o Green Book (2018) deste ano no Oscar após 12 Anos de Escravidão (2013) e Moonlight (2016) terem sido prestigiados na categoria principal; se trocarmos o tema do racismo pela desigualdade. É uma obra rasa nos comentários, acomodada em apontar cinicamente o óbvio, medíocre em sua execução e que só fica mais embaraçosa – para si e para quem a prestigia – quando posta ao lado de expoentes mais sagazes.

The following two tabs change content below.
Yuri A.F. Marcinik

Yuri A.F. Marcinik

Yuri A.F. Marcinik, bacharel em Jornalismo formado pela UEPG. Amante da música, da filosofia, da literatura, da pintura e, principalmente, do cinema. Vejo na escrita sobre a cultura uma celebração de traços genuinamente humanos em toda sua miséria e esplendor
Yuri A.F. Marcinik

Latest posts by Yuri A.F. Marcinik (see all)

Yuri A.F. Marcinik

Yuri A.F. Marcinik

Yuri A.F. Marcinik, bacharel em Jornalismo formado pela UEPG. Amante da música, da filosofia, da literatura, da pintura e, principalmente, do cinema. Vejo na escrita sobre a cultura uma celebração de traços genuinamente humanos em toda sua miséria e esplendor

Deixe um comentário