O que esperar dos filmes indicados ao Oscar de Melhor Animação em 2022

O que esperar dos filmes indicados ao Oscar de Melhor Animação em 2022

Importância da família, lutas pessoais dos protagonistas e representatividade são temas de destaque entre os concorrentes

O evento mais aguardado do ano para os amantes de cinema está chegando: o Oscar 2022. A premiação, realizada anualmente em Los Angeles, na Califórnia, conta com cinco produções indicadas na categoria de Melhor Animação. O Cultura Plural apresenta a seguir uma análise crítica dos longas concorrentes na premiação em 2022.

RAYA E O ÚLTIMO DRAGÃO

Raya e o Último Dragão, lançado em março de 2021, foi o primeiro dos cinco indicados a chegar nas telas do cinema. A produção de Carlos López Estrada e Don Hall conta a história de Kumandra, um reino fictício fantástico em que humanos e dragões viviam em conjunto e em harmonia. Contudo, quando uma força maligna chamada Drunn ameaça a paz de Kumandra, os dragões se sacrificam para salvar a humanidade e, até então, se tornam criaturas extintas.

Quinhentos anos depois, a pequena Raya acredita que os dragões ainda estão escondidos nas terras mágicas. E quando o mesmo mal que tirou a vida dos animais retorna à Kumandra, Raya parte em uma missão para encontrar o lendário último dragão sobrevivente e salvar sua terra e os cinco povos que a governam.

Mais uma vez, a Disney acertou em cheio no quesito inovação. Ao fugir dos tradicionais contos dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen, Raya e o Último Dragão apresenta uma história original de uma jovem guerreira em busca da salvação de seu povo, capaz de mover mundos para que tudo volte a ser como antes. Mas, para isso, a personagem aprende lições valiosas ao longo de sua aventura: amizade, coragem, determinação, resiliência e, acima de tudo, a confiar e a perdoar.

A lição de moral do filme, ao retratar que precisamos confiar uns nos outros para sermos mais fortes e perdoar aqueles que um dia nos machucaram para seguir em frente, é um dos pontos fortes do longa. Os amigos que Raya faz em cada um dos povoados que visita em busca da solução para o mal dos Drunn retratam de maneira perfeita que, juntos, podemos ir mais longe e construir um mundo melhor. Pensando nisso, é impossível deixar de mencionar a personagem Sisu, a dragoa lendária pela qual Raya busca no começo do filme. Com tiradas engraçadas e uma mensagem de resiliência e coragem, a coadjuvante rouba a cena e é considerada pelo público e pela crítica um dos personagens mais marcantes dos últimos anos produzido pelos estúdios Disney.

Vale citar que esta também é a primeira vez que o estúdio apresenta uma primeira princesa do sudoeste asiático. Para que o filme fizesse jus à cultura que o inspirou, os criadores fizeram viagens de pesquisa a vários países da região, incluindo Camboja, Laos, Tailândia, Vietnã, Cingapura, Indonésia e Filipinas.

A proposta do filme não é de emocionar, mas também consegue arrancar lágrimas dos telespectadores. Afinal, com as diversas cenas de ação entre Raya e seu fiel escudeiro, o tatu Tuk Tuk, contra os inimigos encontrados ao longo dos territórios de Kumandra, o público fica mais com vontade de combater o mal junto da heroína do que chorar com o balde de pipoca na mão.

Raya e o Último Dragão é um filme empolgante, enérgico e rico, tanto visualmente quanto culturalmente. Um símbolo de empoderamento para as próximas gerações e uma história com profunda moral para aprendermos que, juntos, somos capazes de muito mais.

FLEE

Flee é um filme de docudrama independente, lançado em junho de 2021. Dirigido por Jonas Poher Rasmussen, o longa conta a história de Amin Nawabi, um homem que vivia no Afeganistão da década de 1980 e com o crescimento das forças dos Mujahideens, guerrilheiros precursores do Talibã, teve que fugir com a família de sua terra natal. Vivendo na Dinamarca já mais velho, Amin resolve compartilhar sua história, que nem mesmo o companheiro, Kasper, sabe de toda a verdade.

A produção norueguesa é uma tocante história de sobrevivência e não poderia ser mais atual. O passado recheado de traumas do protagonista, que tem um olhar caído, preocupado e sofrido ao longo de todo o longa, reafirma as atrocidades realizadas pelo ser humano em guerras e as marcas físicas e psicológicas deixadas por conflitos como estes.

Vale citar que o filme utiliza com maestria o recurso da animação para despertar sentimentos e construir uma narrativa comovente para o espectador. Enquanto as imagens do presente de Amin são retratadas em colorido, as lembranças do passado são trazidas para a tela em preto e branco, imprimindo a mensagem necessária para o momento. Além disso, Amin faz parte da comunidade LGBT+, o que traz mais um desdobramento para sua vida, ao enfrentar tanto uma jornada de auto aceitação, como um processo de entendimento de sua sexualidade por parte de sua família. O assunto é tratado de maneira natural, porém não deixa de fora as dificuldades enfrentadas pela comunidade ao se assumir como são.

Um filme denso, potente e incrivelmente real. Flee se mostra um forte candidato ao prêmio, e não apenas nesta categoria, já que concorre também em melhor filme internacional e melhor documentário. Um longa capaz de causar reflexões que permanecerão por dias na mente daqueles que se sensibilizem com a história de Amin e de tantos outros que enfrentam guerras internas e externas em suas vidas.

LUCA

Luca, lançado em junho de 2021, dirigido por Enrico Casarosa, mostra muito bem uma das principais reputações da Pixar, a de criar filmes divertidos para crianças, mas reflexivos para adultos. A trama, que se passa na Riviera Italiana, conta a história de Luca, um menino-peixe que vive no fundo do mar com a sua família, mas que sempre se sente tentado e curioso a subir até a superfície, mesmo que seus pais o alertem dos perigos existentes.

Em um dia rotineiro, Luca encontra um objeto diferente no fundo do mar: uma vitrola. Ele também acaba conhecendo Alberto, outro menino-peixe, porém que vive na superfície. Alberto é corajoso e feroz, impressionando Luca com o delicioso saber de conhecer um novo mundo mágico e encantador. Luca, portanto, desobedece seus pais, saindo da sua zona de conforto com Alberto em direção à superfície. A relação dos dois é a trama principal do filme, retratando a simplicidade e pureza das amizades na infância.

Logo a dupla Luca e Alberto, unidos pelo sonho de comprar uma vespa, conhecem Giulia, e o mais novo trio de amigos se autodenomina de “os excluídos”, por serem diferentes um do outro e não se sentirem pertencentes ao local em que estão, o Vilarejo dos Pescadores, um local de pessoas que abominam e caçam monstros marinhos. Neste momento do filme o preconceito com o desconhecido é muito bem retratado, pois os meninos precisam se esconder e tomar cuidado para não revelarem sua forma animalesca.

A nova amiga da dupla, Giulia, tem o sonho de ganhar uma corrida de obstáculos, e Luca e Alberto logo se juntam a ela nesta aventura mirabolante, com o objetivo de ganhar o dinheiro do prêmio para comprar a tão desejada Vespa. Porém os planos talvez não saiam como o esperado.

A animação da Pixar retrata muito bem os laços, tanto de amizade, quanto familiares, e todas as complexidades que permeiam as relações humanas. Inclusive, muitos dos telespectadores acreditam fielmente que Luca e Alberto seriam personagens LGBT+, sem poderem revelar sua verdadeira identidade, por medo da reação e preconceito dos outros habitantes. Porém, o diretor do longa afirmou que a animação é baseada na sua própria infância e não tem ligação com a temática LGBTQI+. Mas isto é o mais bonito da arte, ela é livre para interpretações!

A FAMÍLIA MITCHELL E A REVOLTA DAS MÁQUINAS

Distribuída pela Netflix, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é uma animação produzida pela Sony Animation, que teve sua estreia em novembro de 2021. Envolvente, engraçada e ao mesmo tempo leve, a história tem como protagonista Katie, uma grande nerd apaixonada por filmes. Porém a narrativa é centrada nas relações da sua família. O longa consegue se destacar pela sua incrível técnica

artística, que mistura elementos dos quadrinhos em abusos de cores, formas e grafismo com uma narrativa que prende tanto crianças, quanto adultos.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, como o próprio nome já diz, gira em torno da família Mitchell, formada pelos pais, Rick e Linda, o irmão caçula, Aaron, e o cachorrinho Monchi. Os quatro decidem fazer uma espécie de viagem de despedida para Katie, que está indo conquistar um dos seus maiores sonhos: cursar cinema em uma universidade na Califórnia. Mas o que era para ser uma simples viagem em família acaba se tornando a tentativa de sobrevivência a um apocalipse de fim de mundo, onde a família Mitchell passa a ser a esperança de salvação da humanidade, por serem os únicos sobreviventes da revolta das máquinas contra os seres humanos, comandados pela inteligência artificial PAL.

Para muitos, a temática acaba aproximando o público do filme, por se assemelhar muito à realidade vivida durante a pandemia da Covid-19, em que se remetia ao fim dos tempos, mas a vacina chegou para mudar essa realidade. Porém, durante esta aventura emocionante, com diversos desdobramentos, a história abre espaço para retratar os sentimentos da filha incompreendida pelos pais, ao mesmo tempo que desenvolve a relação familiar, mostrando como cada integrante da família Mitchell é diferente um do outro. Ao se conhecerem melhor durante a viagem e entenderem que precisam se aceitar e se amar, mesmo com as suas diferenças, o filme revela uma grande lição de vida, mesmo que com muito humor envolvido.

É impossível não se divertir com o filme. Além de ser frenético, é também muito engraçado e todos os personagens são cativantes. O público se diverte até mesmo com a grande “vilã” do filme, a inteligência artificial PAL. E um dos pontos de grande relevância da trama é a inclusão da temática LGBT+, já que esta é a primeira animação da Sony a ter personagens pertencentes à comunidade. A protagonista Katie é queer, e no final do filme apresenta a nova namorada à sua mãe com uma leveza encantadora. Essa representação é muito importante para a aceitação das crianças e jovens da comunidade LGBT+, mostrando que não tem idade para retratar todas as formas de amor.

ENCANTO

Encanto fecha a lista dos indicados ao Oscar de melhor animação. Lançado em novembro de 2021, o longa de Byron Howard e Jared Bush, com trilha sonora do lendário produtor musical Lin-Manuel Miranda, faz jus ao nome que carrega. É um colírio para os olhos e um alento para a alma do começo ao fim.

Encanto conta a história da família Madrigal, composta pela matriarca Alma, que perde seu marido Pedro em uma trágica travessia em busca de uma nova terra para morar. A personagem recebe um milagre divino, no qual a vela que carregava recebe poderes mágicos e se torna o ponto central para o início de um novo vilarejo. Assim, a vela cria uma casa mágica, a ‘Casita’. Nela, Alma reconstrói sua família, com os

filhos Julieta, Pepa e Bruno, fruto de seu relacionamento com Pedro, além de seus genros e netos.

É um dos netos de Alma que, inclusive, assume o papel de protagonista da história. Mirabel, a filha mais nova de Julieta, é diferente dos demais familiares. Isso porque a jovem é a única membro dos Madrigal que não recebeu um dom da ‘Casita’. Todos os demais componentes da família foram concebidos com poderes mágicos para cuidar da casa e de seu povo, desde super força, audição poderosa, sensibilidade ao tempo, e as capacidades de mudar de forma, conversar com animais, florescer plantas e curar pessoas. Mas nem por isso Mirabel se deixa abater e, diariamente, ajuda a família em seus afazeres e os estimula a realizar suas funções em prol da comunidade.

Porém, quando a vela mágica da família começa a se apagar e os Madrigal passam a perder seus poderes, Mirabel parte em busca de respostas e resolve investigar o que está acontecendo com a ‘Casita’. Deste modo, a personagem embarca em uma aventura dentro e fora da casa mágica, descobrindo segredos do passado e a verdade por trás da ausência de seu dom.

Encanto é o grande favorito a levar a estatueta entre os indicados. E mais do que merecido. O filme, inspirado na cultura colombiana, traz um retrato fiel, divertido e sensível de uma configuração familiar na América do Sul. Afinal, sempre tem aquela prima fofoqueira, a tia que tem a solução para todos os problemas de saúde, os irmãos que são completamente diferentes um do outro e um tio que ninguém conhece muito bem.

Aliás, além da própria Mirabel, uma protagonista forte e inspiradora, Tio Bruno é um dos personagens mais interessantes do longa. Excluído da família por ter um dom ameaçador – o de prever o futuro – Bruno se mostra o personagem chave tanto para a solução final do filme, quanto para a evolução pessoal da protagonista. Não é à toa que a canção “We Don’t Talk About Bruno”, que trata do medo que a família e a própria comunidade tem do personagem, se tornou um hit mundial.

Em Encanto, cada personagem é uma força vital para a história. O filme, ao abordar uma constelação familiar que parece perfeita, também retrata as fragilidades das pessoas que a compõem, evidenciando ainda os problemas mentais que permeiam as discussões atuais. Enquanto Luisa, a irmã mais velha dotada de super força se vê na constante pressão de ajudar tudo e todos, a personagem retrata a ansiedade de maneira nua e crua. Já Isabela, da qual é exigida nada menos do que a perfeição na hora de produzir flores e frutos, enfrenta crises de identidade, em que se perde em saber o que realmente quer ser ou fazer.

A moral final do filme está em saber que cada um possui o seu próprio dom, mesmo que nem todos consigam sempre enxergar ou valorizar, pois o verdadeiro dom está no que se pode oferecer do coração. E não será uma surpresa que um filme com uma mensagem dessas retorne para casa com a estatueta dourada. Afinal, se tem algo

que a Disney sabe fazer com louvor, é entregar histórias esplêndidas para seu público e ganhar Oscar.

A 94° cerimônia do Oscar acontece no dia 27 de março, às 21 horas. O Cultura Plural irá divulga suas apostas para as categorias principais da premiação. Fique ligado!

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Yasmin Orlowski

Yasmin Orlowski

Eu sou Yasmin Orlowski, tenho 21 anos e sou acadêmica do 4º ano de Jornalismo, totalmente apaixonada pela vida, pela arte, pelo cinema e pela música.
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Eu sou Yasmin Orlowski, tenho 21 anos e sou acadêmica do 4º ano de Jornalismo, totalmente apaixonada pela vida, pela arte, pelo cinema e pela música.

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