Por Sérgio Gadini
Foto: divulgaçãoPor Sérgio Luiz Gadin
Aos seis anos de idade, Hind Rajab implora por socorro, por longas horas, até a morte, dentro de um carro alvejado por 355 tiros de tanques militares com outros quatro corpos de vítimas executadas.
As personagens do filme tunisiano que concorre ao Oscar 2026 de melhor produção estrangeira são ficcionais, mas o roteiro é de uma realidade cruel, onde a vida humana – de homens, mulheres, idosos ou crianças – não vale nada aos soldados que impõem um genocídio já denunciado nos territórios da Palestina ocupada e destruída.
Em 89 minutos de duração, a equipe de voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino conversa com a menina de seis anos, única sobrevivente de um ataque do exército ao carro da família, que tenta fugir da Ocupação de um bairro de Gaza pelo exército israelense. As discussões giram em torno da busca de soluções para salvar Hind. A autorização para uma ambulância entrar na área precisa do aval da Cruz Vermelha e do Ministério da Saúde Palestina, evitando novas execuções de médicos e enfermeiros. Escondida no carro com primos e tios já assassinados, Hind pede socorro, enquanto os integrantes do serviço humanitário se revezam para animá-la a resistir, na espera do aval para envio de serviço médico.
“Os tanques estão vindo em direção ao carro e estão bem perto…”. O silêncio da menina é interrompido por sucessivas rajadas de tiros. No final da tarde, quando enfim uma ambulância com médico e motorista tem autorização para chegar ao local, a equipe perde sinal de telefone, o carro para há poucos metros e outra rajada de disparos é captada pelo celular da menina dentro do carro. Os corpos das vítimas e da equipe da ambulância só são identificados 12 dias depois, quando o exército israelense desocupa a área destruída.
Mais que um roteiro fílmico, a voz de Hind Rajab embrulha o estômago e deixa um nó na garganta, capaz de despertar para uma realidade marcada pelas milhares de execuções que as câmeras televisivas já não captam na estreita Faixa de Gaza.
Não há música. A trilha sonora da obra se resume aos diálogos angustiados, de desespero e de revolta, diante da incapacidade de salvar uma criança, que morre, implorando por socorro, na noite de 24 de janeiro de 2024. A voz de Hind Rajab é a gravação original das ligações de tristes horas de conversa que terminam com a morte de vítimas de ocupações militares em guerras ou destruições genocidas.
Em cartaz no cinema de diversas cidades do País, A voz de Hind Rajab tem assinatura de coprodução de nomes conhecidos no cinema mundial, como Joaquin Phoenix, Brad Pitt, Rooney Mara e Alfonso Cuarón. Premiado com o Leão de Prata em Veneza 2025, o filme assume um papel de denúncia nos mais importantes festivais do mundo. Independentemente do resultado do Oscar 2026, onde a obra representa a Tunísia na categoria filme internacional – e concorre com a produção brasileira O agente secreto – trata-se de uma peça que vale o tempo para ouvir os apelos de uma criança pelo direito à vida, que não se limita a um caso isolado, pois está comprovado que o genocídio do Povo Palestino já matou mais de 71 mil pessoas. Simples, triste, real e direto ao problema em torno do qual não se pode silenciar.
Dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, A voz de Hind Rajab desafia a estética do cinema em um mundo onde a sensibilidade precisa nortear a criação, roteiro, direção e drama para mostrar aos que amam a sétima arte a vida também por festivais, independente de premiações: entrar na agenda de salas de projeção já é uma forma de chegar aos que ousam e esperam que o cinema vai além da sessão em cartaz para relaxar, refletir e sintonizar com problemas de outros mundos possíveis, que de alguma forma nos interessam e pertencem. Além de concorrer ao Oscar de melhor estrangeiro, o filme tem indicação ao principal prêmio do cinema inglês (Bafta) no ano. Imperdível, apenas!
Sérgio Gadini, professor em Jornalismo na UEPG (PR). E-mail: slgadini@uepg.br