Reconhecer-se é um ato de bravura,
feito louvável que nasce de um certo desprazer,
quando nos atravessa aquele vento frio
que congela por um instante nossos músculos,
naquele instante que nos entendemos,
que nos vemos nitidamente no espelho.
Vem desse lugar algo infamiliar,
observar nossos defeitos e nossas qualidades
misturados em um rio bastante fluido
correndo do consciente ao inconsciente
que é aquela margem longínqua que nem sempre podemos observar,
e ao se perceber,
entendemos que somos o rio,
somos a mistura,
o que contém e o que é contido,
e os defeitos são qualidades,
e as qualidades são defeitos,
e as nossas desculpas já não cabem,
estamos nus em frente ao espelho.
O frio, então, torna-se calor,
as certezas já não são palpáveis,
mas apenas são sussurros incertos,
a infância está a um passo
ao rever as cenas, nosso filme,
chegando a corar a face.
Vergonha? Alívio?
Lentamente o caos aparente
se torna novamente no rio,
porém agora conheço as margens,
entendo a correnteza,
sinto o vento.
O sentimento de liberdade se torna forte,
já posso me despir dos dogmas que carregava,
posso caminhar por onde meus pés queiram me levar,
posso amar sem pudor,
posso fazer as pazes com a criança que sou.