Imagem por: Ingrid MullerO interessante das dores é que, algum dia, a gente consegue usá-las como forma de expressão. A escrita sempre foi a minha melhor tradução. Às vezes é difícil fazer um sentimento grande caber em um verso pequeno de um poema. Então, quanto maior a melancolia das palavras, menos eu preciso explicar. Talvez este seja o poema mais extenso por aqui. Mas eu precisava deixar essa parte de mim nesta coluna e espero que, de alguma forma, ela encoste em algum canto do seu coração, assim como encostou no meu.
A parte da história que ninguém vê
Este é um lembrete de que a vida não acaba quando você vive um momento difícil.
Você sobrevive.
E, no fim, esse tempo vai ser muito mais valioso do que você imagina.
Cinco dias antes do meu aniversário,
o dia em que uma parte de mim nunca mais foi a mesma.
E, numa quinta-feira qualquer,
tudo passou a ser diferente.
Foram dias enxergando a minha pior versão,
a que não conseguia levantar sem doer,
a que tinha medo do próprio corpo
e do próximo passo.
O tempo parecia ter parado.
Os dias eram os mesmos.
Houve dias em que parecia que tudo o que eu era tinha ficado antes da lesão
e o que restou eram apenas pedaços quebrados.
Mas eu estava ali,
mesmo quebrada,
mesmo cansada,
mesmo sem entender.
Eu ainda estava ali.
E isso já era muito.
Eu reaprendi a ter paciência comigo,
a não me odiar por não conseguir,
a não me cobrar por sangrar em silêncio.
Porque ninguém conta
o quanto dói não ser como antes,
o quanto dói aceitar um novo jeito de existir.
Mas eu aceitei,
devagar, doendo, chorando.
E, mesmo assim, aceitando.
Este poema é sobre isso:
sobre continuar,
mesmo quando tudo em você pede para parar,
sobre confiar que o corpo cura
e que a alma também.
E que, no meio de tudo,
você ainda pode florescer,
mesmo mancando, mesmo com medo,
mesmo sem saber como.
Uma versão mais sensível,
mais paciente,
mais viva.
Eu aprendi que não é fraqueza precisar parar,
que não é derrota precisar de tempo,
que não é o fim quando tudo parece suspenso.
Eu perdi coisas naquele dia:
movimentos, segurança e pressa.
Mas ganhei outras:
silêncio, presença
e um novo jeito de olhar para mim.
Hoje eu entendo
que sobreviver também é uma forma de vitória,
que levantar, mesmo devagar, ainda é levantar,
que existir, mesmo com medo, ainda é existir.
E, se você estiver lendo isso
no meio da sua própria dor,
saiba:
isso não é o seu fim,
é só uma parte da sua história.
Você vai voltar a sorrir sem pensar,
a andar sem medo,
a viver sem contar cicatrizes.
E, quando isso acontecer,
você vai perceber
que esse tempo difícil
te ensinou a ser casa para si mesmo.
Como um velho amigo me disse:
“nenhuma dor dura para sempre, Ingrid”.
E enxergar isso,
É uma das formas mais bonitas de amor.