Eu, em travessia

Eu, em travessia

Uma vez, me perdi.

e por um tempo acreditei que não voltaria.

Mas descobri,

quem se perde de si

às vezes só está tentando voltar 

por um caminho com mais poesia.

Hoje eu sei:

fui feita para cidades de alma calma,

onde o silêncio do mar conversa comigo.

Gosto do anônimo, do instante que me dissolve,

do vento que atravessa sem me reconhecer.

Aprendi a estar só, às vezes. 

A fazer silêncio, companhia.

Há dias em que o mundo pesa, 

mas a poesia me salva, 

palavra por palavra,

como quem costura o próprio coração. 

Não gosto que me chamem de intensa,

mas talvez eu seja mesmo.

Um incêndio tentando aprender a ser brisa.

Não sei viver pela metade, eu mergulho.

Sinto até o fundo, mesmo quando dói,

mesmo quando o fundo me olha de volta 

e me reconhece.

Viver, para mim, é sentir.

É o frio daquela cachoeira batendo na pele,

é o amor que parece rasgar,

mas ensina a nascer de novo.

é entender que sentir é existir.

E que nada que é verdadeiro vem sem arrepio.

Às vezes a dor vem sem nome,

mas sem de onde ela vem.

Vem da menina que aprendeu a ser sozinha.

A que sorria para não chorar,

a que esperava por algo que nunca chegou. 

E ainda sim, olha só…

Ela cresceu. 

E que orgulho é poder olhar para ela hoje.

Fez da dor, resistência.

Do choro, um rio.

E da força, muita coragem.

Hoje eu sou o que restou e o que recomeça.

Sou verso em carne viva,

sou travessia em constante escrita.

Sou o livro que aprendeu a se escrever sozinha,

e, mesmo sem final,

segue sendo poesia.

 

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