Pêssankas preservam tradições eslavas e ganham reconhecimento como patrimônio cultural do Paraná
Tradição de ornamentar ovos, presente entre comunidades eslavas, passa a ser reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado
O que pode parecer apenas um ovo decorado carrega símbolos, histórias e conhecimentos transmitidos entre gerações. A tradição de ornamentar ovos está presente entre diferentes povos eslavos, principalmente entre ucranianos e poloneses, e faz parte da memória das comunidades que ajudaram a formar a identidade cultural do Paraná. Em agosto deste ano, a prática ganhou reconhecimento oficial. A Pêssanka foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Paraná pela Lei nº 23.404, de 17 de agosto de 2026.
A legislação define a Pêssanka como uma arte tradicional de ornamentação de ovos com grafismos e simbologias de origem eslava. A técnica é caracterizada pela aplicação de cera e por sucessivas camadas de corantes, que formam desenhos simbólicos e geométricos. O texto também destaca que essa tradição é preservada e difundida pelas comunidades paranaenses de origem ucraniana.
O reconhecimento coloca em evidência uma prática que ultrapassa a decoração de ovos para as celebrações da Páscoa. Os desenhos podem carregar diferentes significados, relacionados a temas como proteção, prosperidade, vida, renovação e esperança. Dessa forma, a produção da pêssanka também funciona como uma maneira de preservar conhecimentos e memórias culturais.
A cultura em ovos decorados
Embora as culturas ucraniana e polonesa tenham o costume de ornamentar ovos, as técnicas, os símbolos e as formas de produção podem variar. Na tradição ucraniana, a pêssanka é conhecida pelo uso de cera e pela construção dos desenhos em diferentes camadas de cores. Entre os poloneses, os ovos decorados são conhecidos como pisanki e também podem apresentar técnicas e características próprias.
Para Deborah Santos Sedor, descendente de ucranianos e integrante da preservação dessa cultura, a pêssanka vai muito além da aparência. “Para mim, a pêssanka é muito mais do que um ovo decorado. Ela é uma forma de preservar e transmitir a cultura, a história e a identidade ucraniana”, explica.
Segundo ela, cada desenho pode carregar uma mensagem. Símbolos presentes nos ovos estão relacionados à proteção, prosperidade, saúde, fertilidade, vida e esperança. “Cada elemento possui uma simbologia própria e transforma a pêssanka em uma espécie de mensagem”, afirma.
Deborah também relaciona a prática à resistência cultural. Ela lembra que houve períodos em que a produção das pêssankas foi proibida na Ucrânia, mas continuou sendo preservada pelas famílias. “Quando fazemos uma pêssanka hoje, também estamos mantendo viva uma tradição que sobreviveu a momentos muito difíceis e que continua sendo passada de geração em geração.”
A Pêssanka ucraniana
A produção de uma pêssanka é feita em etapas. A cera é utilizada para proteger determinadas partes da casca enquanto o ovo recebe novas camadas de corante. O processo é repetido até que, ao retirar a cera, apareçam os desenhos formados pelas diferentes cores.
Os grafismos não são escolhidos apenas pela aparência. Diferentes símbolos podem representar elementos da natureza, desejos, sentimentos e valores. Deborah destaca que, mesmo existindo tradições de ornamentação de ovos em diferentes povos eslavos, a pêssanka ucraniana possui características próprias.
“Uma das principais diferenças está na simbologia e na técnica tradicional, que utiliza a cera para criar os desenhos e o processo de tingimento em diferentes cores. Na tradição ucraniana, os símbolos têm uma importância muito grande e estão ligados à natureza, à espiritualidade e aos desejos para a vida”, explica.
Ela aprendeu a fazer pêssankas em 2013, durante uma oficina ministrada por Vilson Kotviski. Foi nesse momento que, além da técnica, começou a conhecer de maneira mais profunda os significados presentes nos desenhos. “Desde então, a pêssanka passou a ter um significado ainda mais especial para mim, porque representa uma maneira concreta de manter viva a cultura ucraniana”, conta.
A tradição também está relacionada às celebrações da Páscoa. Ao longo do tempo, porém, a produção das pêssankas passou a ocupar outros espaços, como oficinas, encontros culturais e atividades desenvolvidas por grupos que trabalham com a preservação da cultura eslava.
Deborah explica que o processo de continuidade acontece justamente nesses diferentes espaços. “A tradição continua sendo transmitida entre as gerações por meio das famílias, das comunidades, das oficinas e dos grupos culturais. Muitas famílias ucranianas trouxeram essa prática consigo quando vieram para o Brasil e é muito bonito perceber que, tantos anos depois, ela continua sendo preservada e ensinada.”
Uma tradição que também está presente entre poloneses
Entre os poloneses, a tradição é conhecida como pisanki, nome relacionado à ideia de escrever sobre o ovo. A pedagoga e gestora de Cultura e Turismo, Luciane Spegiorin Surek, explica que a palavra está ligada ao verbo polonês pisać, que significa escrever.
“É uma escrita no ovo, só que ela vem em forma de desenhos e padrões”, explica. Segundo Luciane, a tradição está fortemente ligada aos povos eslavos e aparece tanto entre poloneses quanto entre ucranianos, cada um preservando características próprias.
“As pessoas falam: ‘é dos poloneses’ ou ‘é dos ucranianos’. É dos dois, só que cada um com a sua tradição e com os seus costumes. Embora os significados desses desenhos simbolizem praticamente as mesmas coisas, a forma de desenhar no ovo é diferente”, afirma.
Na cultura polonesa, as pisanki aparecem principalmente ligadas ao período da Páscoa e podem representar vida, renascimento, esperança e renovação. A escolha dos desenhos também pode transformar o ovo em uma forma de demonstrar desejos para outra pessoa.
“Muitas pessoas costumam presentear as outras dando uma pisanka e, dentro desse padrão de desenho, colocam aquilo que desejam para a pessoa que está recebendo”, explica Luciane.
Para ela, é justamente essa relação entre desenho, memória e significado que faz com que as pisanki ultrapassem o caráter decorativo. “Elas são mais do que ovos decorados. São símbolos de história, de fé, envolvem a arte, a tradição e também a identidade cultural polonesa.”
Aprender para continuar ensinando
A relação de Luciane com a cultura polonesa vem de diferentes momentos de sua vida. O primeiro contato de Luciane com a ornamentação de ovos, no entanto, aconteceu ainda durante a infância. Ela lembra de ter participado de um curso, embora não tenha concluído todo o processo. Anos depois, a experiência retornou à memória quando voltou a trabalhar com a técnica.
Ela recorda especialmente o uso da cera de abelha e o tingimento em diferentes cores. “A gente passava por várias cores de tinta, sempre da mais clara para a mais escura. Era um processo que eu lembrava de quando era criança.”
A prática ganhou ainda mais espaço depois de fazer uma viagem para a Polônia. Ao retornar ao Brasil, Luciane participou de um projeto voltado à realização de cursos de artesanato polonês. A proposta inicialmente seria desenvolvida presencialmente em 2020, mas precisou ser modificada por causa da pandemia.
Foi nesse período que ela passou a pesquisar mais profundamente as técnicas, as cores e os significados dos diferentes artesanatos. “Teve técnica que eu tive que buscar informação, muito estudo e muita pesquisa. Esse pesquisar e esse fazer me deixaram mais pronta para falar sobre esses artesanatos”, conta.
Para Luciane, compreender essas diferenças também ajuda a entender a diversidade existente dentro da própria cultura polonesa, assim como os ovos decorados, bordados, trajes e outros artesanatos que apresentam características específicas conforme a região de origem.
Essa identificação aparece nas cores, nos desenhos e nas formas de fazer. “Essa é a identificação cultural. É uma herança, um patrimônio cultural específico de cada região”, explica.
Entre tradição e memória
No Paraná, as tradições de origem ucraniana e polonesa fazem parte da história das comunidades formadas pelos diferentes fluxos de imigração europeia. Junto com a língua, a culinária, as festas e as práticas religiosas, técnicas artesanais também foram transmitidas entre gerações.
Para quem mantém esses costumes, ensinar uma técnica significa também transmitir uma parte da própria história.
Luciane entende a preservação da pisanki dessa forma. Para ela, manter a prática significa fortalecer uma ligação com aqueles que vieram antes. “Para todos os descendentes de imigrantes poloneses, manter essa tradição viva é também uma forma de valorizar as origens, fortalecer os vínculos com os nossos antepassados e preservar um importante patrimônio cultural para as próximas gerações.”
A continuidade das pêssankas depende não apenas da produção dos ovos, mas da permanência dos conhecimentos relacionados à prática. Saber preparar a casca, aplicar a cera, escolher as cores e interpretar os símbolos são saberes aprendidos dentro das famílias, das comunidades e também por meio das oficinas.
Deborah também destaca o reconhecimento como patrimônio e valoriza justamente as pessoas responsáveis por manter esse conhecimento vivo. “Ver a pêssanka sendo reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná tem uma importância gigante. É o reconhecimento de uma tradição que faz parte da história de muitas famílias, que atravessou gerações e que continua viva até hoje”, afirma.
O reconhecimento pelo Paraná
É nesse contexto que a Lei nº 23.404 ganha importância. Ao reconhecer oficialmente a Pêssanka como Patrimônio Cultural Imaterial do Paraná, o Estado passa a registrar a prática como parte da diversidade cultural paranaense.
A lei foi apresentada pela deputada estadual Márcia Huçulak e aprovada pela Assembleia Legislativa do Paraná. O texto foi sancionado em 17 de agosto de 2026 e entrou em vigor na mesma data.
Embora o reconhecimento oficial esteja diretamente relacionado à tradição preservada pelas comunidades ucranianas, a própria legislação utiliza a expressão “simbologias de origem eslava”, colocando a prática dentro de um contexto cultural que também permite observar aproximações e diferenças entre os povos que mantêm a ornamentação de ovos.
Para Deborah, o reconhecimento representa ainda uma forma de valorizar quem transmitiu a prática ao longo dos anos. “Para mim, é também uma forma de valorizar todos aqueles que mantiveram essa tradição viva e garantir que ela continue existindo e sendo conhecida pelas próximas gerações.”
Mais do que preservar o objeto pronto, manter a tradição significa preservar o conhecimento por trás dele. Em cada ovo decorado permanecem as cores, os desenhos e os símbolos, mas também histórias familiares, lembranças e formas de conexão com as próprias origens.
