Teatro resgata história de Corina Portugal e comove público em Ponta Grossa
Apresentado pelo coletivo Bendito Ato, o espetáculo “Corina: Ecos do Silêncio” recria o feminicídio histórico e emociona com uma mensagem de reflexão e memória

Corina chora ao ser reprimida pelo marido por mandar cartas sem ser para pedir dinheiro ao pai.
Corina Antonieta Pereira Portugal foi uma jovem que sofreu agressões domésticas pelo marido Alfredo Marques, foi vítima de feminicídio e se tornou uma santa popular. As violências no casamento começaram após se mudarem para Ponta Grossa, onde foi morta em 1889. No último sábado (26), o grupo Bendito Ato apresentou o espetáculo “Corina: Ecos do silêncio” no Cine Teatro Ópera, que conta a história da jovem Corina em forma de arte e sentimento.
No início da peça, Alfredo, marido de Corina, é visto em seu julgamento, quando foi absolvido. A ideia é pensar que ele foi vítima e não teria ligações com a morte da esposa. No final da peça, após o assassinato de Corina, são transmitidas várias notícias sobre feminicídio, enquanto Corina fica ao centro com uma luz branca. Os atores são aplaudidos em pé pela platéia e conduzem um bate-papo sobre violência contra mulheres com o público, relembrando que nos dias atuais ainda acontece com milhares de mulheres o que aconteceu com Corina.

Cena registra o momento em que Alfredo mata Corina
O ator Vicco Dallenare, que interpretou Alfredo, marido de Corina na peça, detalha como foi a produção e todo o preparo para a apresentação. “O grupo iniciou a pesquisa com a leitura do livro “Corina Portugal, Histórias de Sangue e Luz”, de Josué Corrêa Fernandes, que traz a biografia de Corina”. O ator explica que também foi realizada uma pesquisa na hemeroteca da Biblioteca Nacional, que tem a digitalização de todos os jornais da época, para ter acesso a notícias sobre o crime. “Após toda essa construção, trouxemos ao palco”, relata. Ele conta que sua experiência com o personagem foi desafiadora para acessar outras emoções, pois várias cenas de início foram complicadas e tensas.
Cauynê Vieira, atriz e psicóloga, interpretou a personagem principal, Corina. Ela relata sua experiência com a personagem e os sentimentos com a interpretação. “É um ser muito delicado, no sentido de que ela era uma adolecente quando se casou, trazer a doçura dela, esse imaginário e essa fantasia, e desenvolver no personagem para ela ir percebendo que tinha entrado num relacionamento que não era o que imaginava”. Ela conta sobre o desenvolvimento como atriz, mas admite que foi pesado, como mulher, trazer essa história. “Olhar para a história dela, pensar sobre tudo isso que ela viveu, é muito difícil”.

Após ter sido morta, Corina deixa uma mensagem para o público.
O personagem Dr. João de Menezes Dória foi interpretado pelo ator Christian Oliveira, que explica a relação que o personagem tinha com Corina e seu marido. “Ele era um amigo do casal, quando eles vieram para Ponta Grossa do Rio de Janeiro ele ajudou o Alfredo a fundar a própria farmácia. Ele também tinha bastante contato com a família, um amigo muito próximo mesmo”. O ator revela que, na história de Corina, foi ele quem encontrou o corpo e foi considerado culpado pelo crime, pois disseram que teria cometido adultério junto a Corina.
Assim como os demais atores do elenco, Oliveira relata o sentimento de orgulho com a peça e menciona a direção do Bemdito Ato. “Como é a primeira apresentação do Bemdito em questão de teatro, já ter esse impacto tão grande na cidade, alcançar tantas pessoas, dá realmente um orgulho”.
O elenco contou também com a participação dos atores João Serafim e Stefane Gonçalves.

Espaço reservado para pedidos a Corina.
Conheça a história de Corina Portugal
Corina Portugal nasceu no dia 17 de Janeiro de 1869, no Rio de Janeiro. Filha de uma família rica, casou-se muito jovem com Alfredo Marques de Campos, farmacêutico, 26 anos, de família humilde.
O casal passou a residir em Ponta Grossa e logo iniciaram as situações de violência doméstica, relatadas por Corina ao pai por meio de cartas. O marido era dependente de álcool e jogos de azar e por diversas vezes agrediu a esposa. Em 26 de abril de 1889, Alfredo matou Corina com 32 golpes de punhal. Com a ajuda do advogado Dr. Vicente Machado, conseguiu absolvição, alegando o adultério da esposa.

Ao final do espetáculo, várias noticias sobre feminicídio são expostas, em meio à imagem de Corina Portugal.
Corina Portugal foi o primeiro feminicídio documentado em Ponta Grossa. São atribuídos a ela diversos milagres, o que a torna uma santa popular do município.
O Cultura Plural fez uma matéria em 2015 destacando o movimento que reivindicava a mudança de nome da Avenida Vicente Machado para Corina Portugal como forma de reparação histórica. Conheça também a oração de Corina, que acolhe mulheres em situação de violência doméstica.
