“O si-mesmo como outro”
Reflexões sobre alteridade e apagamento da diversidade religiosa
Névio de Campos
Durvina Maria Guimarães de Pontes
“As histórias importam.
Muitas histórias importam.
As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar”.
Chimamanda Ngozi Adichie
O perigo de uma história única
Imagine, você que nos lê, uma cidade com mais 350 mil pessoas, que fica em um país com aproximadamente 220 milhões de pessoas. Não são apenas números, são seres humanos que vivem, trabalham, sentem, riem, choram, dormem, tem fé, e fazem tantas outras coisas. São pessoas que vivem no Brasil, em Ponta Grossa. Sim, falamos de quem está ou é da cidade de Ponta Grossa. Caro(a) leitor(a), o que há para além de moradores dessa cidade ou desse país? Aparentemente, são brasileiros (de nascimento ou de coração)! Ou ponta-grossenses (de nascimento ou de coração). Logo, irmanados numa mesma identidade. É tão simples assim? Parece que não! Acompanhe-nos, leitor(a)!
Vamos utilizar o recorte “religiosidade” ou “pertencimento religioso” para ilustrar isso. No Brasil, as identidades religiosas estão assim distribuídas: 56,7% declaram-se católicos; 26,9% evangélicos; 9,3% sem religião; 4,01% budistas, judeus, islâmicos, messiânicos, espiritualistas e outros grupos menores; 1,05% de religiões afro-brasileiras; 0,06% religiões indígenas; 0,17% sem declaração. Em Ponta Grossa, vê-se o seguinte quadro: 59,92% se declaram católicos; 28,01% evangélicos; 5,53% sem religião; 3,58% outras religiosidades; 2,04% espíritas; 0,69% religiões afro-brasileiras; 0,14% não sabe; 0,09% sem declaração; 0% religiões indígenas (são dados produzidos pela imprensa a partir do Censo do IBGE de 2022). Percebe-se uma pluralidade de crenças. Portanto, devemos dizer identidades religiosas, o que deve nos remeter à ideia de alteridade. Nos termos do filósofo Paul Ricoeur, “o si-mesmo como outro”.
Acompanhe-nos nessa comparação: se no Brasil, 83,6% são cristãos e 1,05% de religiões afro-brasileiras, em Ponta Grossa 87,93% se dizem cristãos e 0,69% de religiões afro-brasileiras. De cada 10 ponta-grossenses, quase 9 são cristãos e menos de 1 é integrante de religiões afro-brasileiras. Está em destaque a distribuição desses três pertencimentos religiosos porque é deles que gostaríamos de tratar aqui.
Como ler esses dados? Nas primeiras décadas do século passado, por exemplo, uma das posições recorrentes era que a maioria deveria definir em detrimento das minorias, isto é, importava aquilo que servia à grande maioria. Hoje, esse posicionamento é considerado anacrônico. Mas há ainda quem o defenda como orientação no século XXI. É disso que trata a epígrafe da famosa escritora nigeriana, que nos provoca (ou deveria nos provocar) a várias reflexões sobre as histórias que nos são contadas. Elas são geralmente a história da maioria, dos dominantes ou dos detentores de privilégios sob algum aspecto. As demais histórias são apagadas, tornam-se “ocultas” (mas não invisíveis, para nos reportarmos a Michel Foucault), ou ainda nos chegam distorcidas e fragmentadas. Mas elas também existem e são muito importantes. Ou não são, caro(a) leitor(a)? A epígrafe sublinha que a história é força, mas também é luta. Sendo assim, é na própria história que estão inscritas as diferentes possibilidades da condição humana, inclusive a condição de si-mesmo como outro.
Voltemos, caro(a) leitor(a), a Ponta Grossa. Aqui, em agosto de 2026 (pasmem pelo que aconteceu!), foi aprovado na Câmara Municipal de Ponta Grossa o projeto de lei n. 459/2025, proposto por um vereador e pastor de uma instituição religiosa, e sancionado pela prefeita dessa cidade. O referido projeto (agora lei) “estabelece a inclusão da bíblia sagrada como recurso paradidático nas escolas públicas municipais e particulares de Ponta Grossa”. Alguém pode dizer-nos: Que mal há nisso? Ou ainda mais: se quase 90% são cristãos, parece ser uma medida justa! Nisso está o anacronismo! A maioria não pode ou não deve se sobrepor às minorias. São vidas! São identidades! Logo, todas as pessoas devem ser consideradas.
Se quisermos exercitar nossa condição de humanidade: viver em comunhão com os outros, com quem tem uma vida diferente. É disso que se alimenta a possibilidade de uma história mais humana, cuja tarefa ou cujo desafio passa pela educação, sobretudo pela educação escolar. Se podemos ser melhores do que já fomos, isso passa pela escola. Portanto, a escola deveria exercitar o si-mesmo como outro e não o si-mesmo como si-mesmo. A escola não pode ser um inventário do si-mesmo! Ela deve ser um inventário das diferenças, ou do si-mesmo como outro! Esse projeto que se tornou lei, ao invés de contemplar a pluralidade religiosa, gera divisões. E pior, produz divisão e privilegia grupos religiosos que têm suas histórias produzidas ou reproduzidas nos mais diferentes meios da vida social. Um projeto muito diferente poderia ser proposto! Talvez uma proposição que estimulasse uma comunhão de todas as crenças, pois assim as crianças teriam a oportunidade de sair de si-mesmas.
Outras possibilidades são possíveis! Caro(a) leitor(a), você conhece o documentário Agô: minha cidade tem Saravá (2019), produzido por Juliana Gelbcke, Felipe Soares e Guilherme Marcondes? Nesse filme, os diretores apresentam percepções e narrativas de pessoas de religiões afro-brasileiras de Ponta Grossa. Uma cidade que tem a maioria de pessoas que se afirmam cristãs, também possui praticantes de outras religiões, que merecem ser ouvidas, respeitadas e acolhidas. O documentário inicia com a palavra Agô, que em Orubá é um pedido de licença. Pedimos também licença a você que nos lê, embora um pouco tarde, para reproduzir o que vimos e compreendemos.
Um dos narradores-diretores explica que em Ponta Grossa existem terreiros de umbanda e candomblé, religiões ancestrais que atravessaram o oceano, trazidas por pessoas que, apesar do sofrimento da escravização, preservaram sua tradição, suas crenças e sua fé, sendo elas hoje praticadas por seus descendentes e por várias pessoas que com elas se identificam. Em seguida, traz depoimentos de diversas pessoas que contam como chegaram até essas religiões. Pai Ricardo comenta que passou por diversas religiões antes de conhecer a umbanda, derrubou vários estereótipos que ele mesmo conservava ao conhecê-la. Mãe Tania também deu seu depoimento, dizendo que antes de chegar à umbanda, foi tratada como louca pelos familiares que não admitiam essa religião. Pai Heverson narrou que encontrou a religião aos quatorze anos, a convite de um amigo e desde que entrou pela primeira vez, identificou-se e está lá até hoje. Em seguida, mãe Dani deixou também seu depoimento, ao lado do seu altar de devoção, dizendo que a umbanda significa tudo para ela. É uma fala rodeada pela simbologia do lugar e de objetos sagrados. Regina contou que apesar da sua mãe ser umbandista, ela não aceitava essa religião, mas que poucos meses depois do falecimento de sua mãe, ela se casou com um pai de santo e aderiu à religião. Dona Neusa diz que sempre foi católica, mas que aos 43 anos entrou na umbanda por curiosidade e acabou se encontrando nessa religião. Esses depoimentos marcam o que classificamos como “indicativo do encontro dessas pessoas com a religiosidade afro-brasileira”.
Depois disso, são apresentados diversos depoimentos de jovens e adultos que nasceram dentro de uma família praticante. Eles relatam com emoção o orgulho de pertencerem ao candomblé e à umbanda. O documentário está imerso em falas que tratam dos sentidos dessa religiosidade. São compartilhados com o espectador os significados de rituais e entidades. Trata-se de uma imersão de quem assiste o documentário em um universo diferente para grande parte das pessoas da cidade de Ponta Grossa. Imiscui-se em uma intriga, isto é, no próprio conhecimento. Acentua-se o compromisso com o conhecimento, de um saber compartilhado pelos depoimentos sob mediação e condução dos três diretores desse filme. O espectador é convidado a participar dessa intriga produzida pelo documentário. Um filme é uma mimesis, que é conhecimento, e não cópia ou réplica. A mimesis “designa um conhecimento próprio ao homem, a maneira pela qual ele constrói, habita o mundo”, como afirma Antoine Compagnon no livro O demônio da teoria. Entre narradores e narrativas, pode-se ver a construção desse mundo habitado e vivido por essas pessoas da cidade de Ponta Grossa. Nessa intriga, o espectador participa do processo de interpretação à medida que os depoentes narram suas vidas, dão certa sequência aos sentidos da religiosidade, conectam suas vivências ao conjunto das simbologias. Ritos e mitos se misturam. A simbologia toma conta das narrativas! O espectador é conduzido ou convidado a interpretar um conjunto de coisas que talvez não fizesse sentido antes do ingresso nessa intriga. Fica-se imerso aos sentidos das oferendas ou entregas às entidades. E de repente, descobrem-se os diferentes nomes de entidades e objetos sagrados. Esses depoimentos constituem o que designamos de “sentidos dos ritos e efeitos na vida dessas pessoas de religiosidade afro-brasileira”.
Os diretores do filme criam uma camada de interpretação à medida que fazem uma inflexão em torno da questão da identidade. Juliana Gelbcke fez uma importante reflexão sobre o culto aos orixás e às entidades, lembrando serem muito mais que apenas manifestações religiosas. Enfatiza que fazem parte da construção da cultura brasileira e representam a resistência e a manutenção da identidade negra e do orgulho de defender suas crenças e tradições desde quando foram arrancados da África até os nossos dias. Lembra que a história do negro em nosso território não pode reduzir-se ao martírio do cativeiro e da escravização, porque isso seria reduzir sua própria história ao esquecimento. Nessa camada interpretativa, os diretores trazem a fala do professor Robson Laverdi, do curso de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Para ele, apesar de ser definida como uma cidade conservadora, Ponta Grossa é reconhecidamente uma cidade contraditória, desigual e plural, tanto no sentido histórico, quanto no sentido cultural. Além disso, assinala que nós temos um passado de não reconhecimento e de apagamento de nossa brasilidade. E diz que as experiências do outro em um país formado pela diversidade étnica não foram registradas historicamente. Isso contribuiu profundamente para o preconceito em nosso país. Essas incursões expressam uma espécie de metanarrativa ou uma estratégia de diálogo com o espectador para conectar a intriga ao reconhecimento, isto é, o efeito da intriga no mundo ou na realidade.
Por fim, as narrativas são direcionadas aos casos de preconceito e intolerância que chegaram à agressão. Os entrevistados lembram que o preconceito não nasce com o indivíduo, que ninguém vem racista do ventre da mãe, mas é ensinado. Um entrevistado, senhor José Luís, falou como os negros querem ser lembrados, não com os estereótipos repetidos por tantas vezes, mas com toda a riqueza que eles trouxeram, com suas capacidades e contribuição que deram ao desenvolvimento do país. Nesse ambiente, é destacada a necessidade da sociedade “abrir sua mente” para o respeito, a fraternidade e para a liberdade de todos praticarem sua cultura e sua religião. Essa parte, com duração de aproximadamente 10 minutos, exprime o que chamamos de salto da mimesis (conhecimento) a dianoia (interpretação) e anagnôrisis (reconhecimento). Ou dito em conformidade com Compagnon, o espectador transita por essas questões – o que vai acontecer nessa intriga? – o que significa essa intriga?
Esse documentário nos leva à reflexão do quanto precisamos educar nossas sensibilidades e relativizar nossas crenças e opiniões. Ele nos lembra de que moramos em uma cidade plural, de que incorporamos grande parte da cultura negra nos nossos costumes, na nossa alimentação e nossa linguagem. Ele funciona como um convite a pensar o si-mesmo como outro. Esse sentido pode ser identificado numa das falas do professor Robson Laverdi, ao sublinhar que a investigação acadêmica serve como ferramenta importante para conhecermos as minorias, ajudando a colocarmo-nos na posição do outro, esse outro que vive na minha cidade e que tem todo o direito de viver sua vida integralmente e de manifestar sua cultura e sua religiosidade, livre de preconceitos e de atitudes racistas e intolerantes. É em torno desse significado que convidamos você leitor(a) a continuar conosco nas linhas finais.
O título desse texto é homônimo ao título de uma obra de Paul Ricoeur (Soi-même comme un autre, 1990). Nessa obra, o autor afirma uma ideia de identidade, subjetividade e ética que rompe com a noção de um eu isolado e autossuficiente. O si-mesmo é um sujeito que se constitui ao longo do tempo, nas relações, na linguagem, na ação e no reconhecimento dos outros. Para ele, é fundamental nos perguntarmos “Quem eu sou ao agir, narrar minha história, assumir responsabilidades e relacionar-me com os outros?”. Logo, não existe identidade sem alteridade. E mais, a alteridade não é algo externo ao sujeito. O outro participa da própria constituição do si-mesmo, isto é, o si-mesmo como outro quer dizer que eu somente consigo constituir e compreender minha própria identidade por meio da relação com a alteridade. Estamos imersos na dimensão ética da vida humana, que quer dizer, segundo Ricoeur, “visar à vida boa”, ou seja, “chamaremos de ‘visada ética’ a visada da ‘vida boa’ com e para outrem em instituições justas”. Logo, um sujeito se constitui não apenas olhando para dentro de si, mas vivendo com os outros (dimensão da relação), assim como vivendo para os outros (dimensão da boa vontade e responsabilidade) e vivendo em instituições justas (dimensão política e social da ética).
Visar uma vida boa com e para outrem em instituições justas exige muita responsabilidade. E se Immanuel Kant (Sobre pedagogia) tem alguma razão ao dizer que “o ser humano não pode se tornar um verdadeiro ser humano senão pela educação”, um projeto de lei como esse aprovado na cidade de Ponta Grossa está na contracorrente de uma vida boa com e para outrem em instituições justas. Deveríamos fazer o oposto, pois se a alteridade não é algo externo ao sujeito, ou se o outro participa da própria constituição do si-mesmo, somente teremos condição de sermos humanos melhores se sairmos em alguma medida de nós mesmos. Portanto, viver ou existir como ser humano requer uma permanente “visada ética”, isto é, uma visada da vida com e para outrem em instituições justas. E a educação é central nesse processo. O documentário exposto aqui funciona como uma experiência do si-mesmo como outro, ou seja, é uma espécie de “história, essa viagem ao outro, que deve servir para nos fazer sair de nós, tão legitimamente quanto nos confortar em nossos limites”, como bem declarou o historiador Paul Veyne na introdução do livro História da vida privada. No fundo, paciente leitor(a), educação ou história é um inventário das diferenças. Logo, sem o si-mesmo como outro não há humanidade.
Névio de Campos é professor na UEPG.
Durvina Maria Guimarães de Pontes é estudante no Curso de Letras da UEPG e bolsista de iniciação científica.